Museologia

O que é “Museologia”?

Desde que o termo se originou, primeiro na Alemanha como “Museologie” e depois chegando à França como “muséologie”, o seu sentido se desenvolveu de forma variante acompanhando as transformações dos museus, que ganhavam mais ênfase na Europa da segunda metade do século XIX.

No Brasil, essa palavra seria introduzida na década de 1930, por meio de sua apropriação a partir de publicações internacionais – particularmente, as francesas – no contexto dos museus nacionais do Rio de Janeiro.

É a partir do início do século XX que o vocábulo “Muséologie” apareceria pela primeira vez ligado à administração de museus, nos contextos específicos da Alemanha e da França. No entanto, o vocábulo “muséographie” – que vinha sendo usado nas últimas duas décadas do século anterior significando explicitamente “a descrição do conteúdo dos museus”[¹]  – passa a ser usado para se referir a todo conhecimento teórico e prático ligado aos museus.

GEORGES HENRI RIVIÈRE

Uma maior teorização dos dois termos se daria quando, movido por uma necessidade de precisão terminológica existente no Conselho Internacional de Museus – ICOM, o museólogo francês Georges Henri Rivière propõe a sua definição, diferenciando Museologia e Museografia.

Entre o fim dos anos 1950 e início de 1960, o então diretor do ICOM, propôs que a Museologia fosse entendida como “a ciência que tem como fim o estudo da missão e organização do museu” e a museografia como “o conjunto de técnicas em relação com a Museologia”[²]. Tal separação entre ciência e técnica, ou teoria e prática estaria presente na definição dos dois termos, sendo posteriormente abarcada pelo termo Museologia que em alguns contextos do mundo ganharia teor mais amplo do que o de museografia.

MUSEOLOGIA NA EUROPA, BRASIL E ESTADOS UNIDOS

Buscando sistematizar uma melhor utilização dos termos e dos conteúdos das disciplinas ministradas no Curso de Museus do Museu Histórico Nacional, Gustavo Barroso já propunha aqui, nos anos 1940, esse sentido mais amplo do termo Museologia em relação à museografia, ao afirmar que o primeiro “abarca âmbito mais vasto do que a Museografia, que dela faz parte, pois é natural que a simples descrição dos Museus se enquadre nas fronteiras da Ciência dos Museus”[³].

Até meados do século XX, quando novos questionamentos seriam levantados sobre tal noção, prevalecia o sentido etimológico do termo “Museologia” em suas diversas definições – que estavam ligadas em particular aos contextos profissionais onde a palavra era usada. Era inquestionável, em todas as acepções conhecidas, que Museologia dizia respeito ao “estudo do museu” ou à “ciência do museu”, diferenciando-se, na corrente francesa, da prática em museus. Essa diferenciação, entretanto, já não era hegemônica desde o início do século XX, o que dificultou a aceitação da corrente francesa em alguns contextos do mundo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, onde era disseminada predominantemente a noção de museum work, a partir dos anos 1920, John Cotton Dana[4] utilizaria a palavra “museumology”, retomada posteriormente por Laurence Vail Coleman e pela American Association of Museums[5]. Apesar da continuada resistência, na América do Norte, a um campo do estudo dos museus – fosse ele chamado de Museology ou de Museum studies –, nos últimos trinta anos o uso crescente da “linguagem da Museologia”[6] na região mostra algum progresso.

O termo “museology” apareceria com um consenso sobre sua definição fundamental, entendido como o estudo dos museus. A partir de meados dos anos 1980, a Museologia internacional é marcada por uma explosão de trabalhos com visões mais teóricas sobre os museus produzidos em inglês. No entanto, estes podem ser percebidos como trabalhos sobre museus, a partir do corpus teórico de outras disciplinas como a antropologia, a sociologia e a semiótica[7].

STRÁNSKÝ

A partir dos anos 1950, uma nova corrente do pensamento museológico ganha destaque no contexto da Europa do Leste, e particularmente na então Tchecoslováquia, com a tentativa de se definir o caráter científico da Museologia ao qual já se referiam alguns autores da Europa dita ocidental, e mesmo no Brasil. A diferença agora estava na tentativa sistemática do pensador tcheco Zbyněk Zbyslav Stránský que, em sua teoria, se propunha a provar que a Museologia é ciência. Partindo da investigação sobre a definição de seu objeto de estudo, Stránský é levado a negar o museu como objeto central da disciplina[8]. Tal negação, em vez de responder à primeira questão colocada, fez com que o próprio Stránský e os tantos outros autores que ele influenciou encarassem o desafio de construir hipóteses e teorias que sustentassem esse campo do saber.

Sua teoria para a Museologia se desenvolveu por meio do programa de ensino implementado no Museu da Morávia, em Brno, cujo Departamento de Museologia estava ligado à Universidade J. E. Purkyně, e era coordenado por Stránský nos anos 1960. Seus conceitos e proposições para a Museologia científica que defendia se propunham a estabelecer a ligação entre teoria e prática. De fato, Stránský nunca ignorou a prática em museus, embora enfatizasse o ensino da teoria museológica como princípio da fundamentação do campo disciplinar.

Esses conceitos e sua fundamentação teórica passariam a ter certa centralidade na produção acadêmica do leste europeu e da Europa central quando diversos novos cursos de Museologia foram criados na região sob a influência da escola tcheca nas décadas seguintes.

A perspectiva científica, que influenciou amplamente o Comitê Internacional de Museologia – ICOFOM nos anos 1980 a 1990, apresenta a Museologia como o estudo de uma relação específica entre o homem e a realidade, estudo no qual o museu, fenômeno determinado no tempo, constitui uma das materializações possíveis. Para Stránský, a Museologia apresenta características de uma disciplina científica independente, cujo objeto de estudo é uma atitude específica do Homem sobre a realidade, mas o autor considera que “as questões básicas do objeto, do método e do sistema da Museologia não foram decididas e consequentemente, também não foi decidido o seu lugar no sistema das ciências”[9].

MUSEALIDADE

Para a maioria dos autores, a Museologia tem a natureza de uma ciência social, “proveniente das disciplinas científicas documentais e mnemônicas, e ela contribui à compreensão do homem no seio da sociedade”[10]. No entanto, essa abordagem particular, marcada pela vontade de impor a Museologia como ciência e de cobrir todo o campo do patrimônio aparece, a muitos, como pretensiosa, e não é menos fecunda que os questionamentos que ela pressupõe.

Assim, decorre dessa perspectiva a noção de que o objeto de estudo da Museologia (científica) não pode ser o museu, sendo ele uma criação relativamente recente na história da humanidade. É a partir dessa constatação que foi progressivamente definido o conceito de “relação específica do homem com a realidade”, por vezes designada pelo termo musealidade.

NOVA MUSEOLOGIA & MUSEOLOGIA SOCIAL

Originou-se na França, ainda nos anos 1970, influenciado pelo processo político e cultural de descolonização, uma forte crítica social ao papel dos museus ditos tradicionais, questionando a sua relação com os públicos, que se oficializou, primeiramente com a associação Museologia Nova e Experimentação Social (1982) e, no âmbito internacional, com a Nova Museologia (1983).

A Nova Museologia influenciou amplamente a Museologia dos anos 1980. Remetendo a um certo número de precursores que publicaram, a partir de 1970, textos inovadores, esse movimento ideológico enfatizou a vocação social dos museus e seu caráter interdisciplinar, ao mesmo tempo em que chamou a atenção para modos de expressão e de comunicação renovados.

Seu interesse estava principalmente nos novos tipos de museus concebidos em oposição ao modelo clássico e à posição central que ocupavam as coleções nesses últimos: tratavam-se dos ecomuseus, dos museus de sociedade, dos centros de cultura científica e técnica e, de maneira geral, da maior parte das novas proposições que visavam a utilização do patrimônio em benefício do desenvolvimento local.

No contexto dos países ibero-americanos, onde essa corrente de origem francesa teve particular aderência, desenvolveu-se, a partir dos anos 1990 e, mais expressivamente, nos anos 2000, a noção derivativa de Museologia Social ou Sociomuseologia, propondo o estudo e o aprimoramento da já enfatizada vocação social dos museus, corrente esta que adquire um sentido próprio nos países mais pobres do hemisfério sul.

SÉCULO XXI

Hoje, a Museologia – em seu sentido mais amplo que engloba todos os já mencionados – recobre um campo vasto de experiências práticas e reflexões teóricas ligadas a todos os processos sociais que constituem o campo museal.

O denominador comum desse campo poderia, em outros termos, ser designado por uma relação específica entre o humano e a realidade, caracterizada como a apropriação do real pela apreensão sensível direta que se dá pela musealização. Uma tal definição não rejeita, a priori, qualquer forma de museu, compreendendo desde as mais antigas (museu tradicional) até as mais recentes (museus virtuais), uma vez que ela tende a se interessar por um domínio voluntariamente aberto a toda experiência sobre o campo museal.

Ela não se restringe, ainda, a qualquer um daqueles que reivindicam o título de museólogo. O que se vê é um campo de saberes e práticas em expansão, que abriga tanto os “museólogos” que recebem uma formação específica para atuar em museus nos seus processos, quanto o pesquisador que se debruça sobre o conjunto de práticas (esse mesmo em expansão, alastrando-se sobre o campo do patrimônio e nas diversas fases da musealização) de maneira crítica e reflexiva.

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