É preciso lembrar até para poder esquecer: luto pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro

Estamos de luto pelo Museu! Estamos de luto pela cultura, pelo patrimônio, pela ciência, luto pela história, por aquela que não nos narrava por inteiro, mas que narra a Nação mesma cujo descaso colocou em chamas a nossa capacidade de lembrar. Este luto por um passado perdido e um presente sem futuro é luto por todos os museus, que queimaram junto com as cinzas do Museu mais antigo, nesta celebração fúnebre do seu bicentenário. Enterramos esta semana parte da museologia, da ciência, do conhecimento científico no Brasil. Enterramos e sofremos pelo patrimônio maior que é o saber e o poder saber sobre nós mesmos. Enterramos o lembrar que serve até mesmo para poder esquecer.

Estamos de luto pelo Museu Nacional e por seus duzentos anos de museologia, de ciência e de história. Esse Museu, cuja perda sentimos como quem perde alguém com quem ainda se tem muito a dizer, esse Museu que faz parte de nosso cotidiano, que conta histórias da nossa vida e a história de nosso próprio pensamento sobre os museus, sobre nós mesmos como pessoas de museus, deixa um vazio palpável de uma lembrança que não se quer perder mesmo depois de queimar sem piedade diante de nossos olhos. O Museu que nos fez, como pesquisadores, museólogos, antropólogos, arqueólogos, paleontólogos, zoólogos, botânicos, historiadores dos museus e da ciência, indígenas, visitantes, turistas, amantes, passantes, curiosos… É um Museu que foi feito por pessoas de carne e osso que felizmente sobrevivem, mas tristemente são privadas de continuar a pensar com as coisas guardadas por ele. Essas pessoas lutaram desde antes do luto; fizeram o Museu, se formaram no Museu, lutaram pelo Museu que sobrevivia pelo suor daqueles que o conduziram apesar dos percalços. O Museu Nacional, símbolo da contradição que marca todo um país, possuía uma das mais ricas coleções do mundo e um dos menores orçamentos em 2018, até pouco antes de queimar.

Esse Museu, que é de todos nós, chegou aqui em meio a uma história que nos constitui – e que até para poder contestá-la precisamos, antes, conhece-la, lembra-la por meio dos vestígios que ela nos deixou. O Museu Nacional do Rio de Janeiro – cuja criação, em 1818, nós celebramos ao longo deste ano com a devida crítica histórica – marcou, no contexto de um império com sede nos trópicos, a continuidade política e cultural da metrópole na distância da colônia. Ele foi um modelo de produção e disseminação do saber a partir de coleções organizadas e classificadas segundo critérios formulados com base em trocas internacionais, introduzindo no país o sentido daquilo que nomeamos como conhecimento.

 O que ocorre no Brasil com a criação do Museu Nacional, a partir da Casa dos Pássaros (criada em 1784), no momento em que já não havia mais porque manter aqui um entreposto de produtos naturais, foi a continuidade com o modelo de museu existente na Europa, que se deu pela inversão do pacto colonial – “a Colônia comandou a mudança e acabou por assimilar a Metrópole”[¹]. Em outras palavras, o pensamento museológico colonial no contexto da criação do primeiro museu era fundamentalmente metropolitano, e reproduzia nas Américas o projeto cientificista português, cunhado desde as reformas pombalinas, no século XVIII.

Esses primeiros museus nas colônias desenvolveram uma ciência caracterizada pelos critérios de neutralidade e racionalidade disseminados a partir da Europa moderna, tendo o positivismo como característica marcante no século XIX. No entanto, como demonstrou a historiadora das ciências Maria Margaret Lopes, no âmbito da difusão desse chamado “colonialismo científico”[²], esse processo de institucionalização das Ciências Naturais no Brasil incluiu mecanismos ligados às especificidades de nosso contexto local que levou a “ajustes” e “alterações”[³] nos modelos importados. O Museu que vimos queimar, desde o seu passado colonial, confrontou os modelos importados de museologia às narrativas e experiências locais, produzindo uma museologia mestiça, crítica e reflexiva – justamente porque podíamos nos dar ao luxo de lembrar desse passado, e de ressignifica-lo no presente.

Lembramos do passado enquanto ele ainda termina de queimar. Exaltamos suas cinzas, deixadas pela política negligente de uma amnésia anunciada. Sabíamos dos riscos. E muitos foram os gritos por socorro! Quem ouviu o Museu que urrava? Quem olhou para seus profissionais mal pagos e sem condições de fazer viver a lembrança de um passado necessário? Onde está o Museu que ninguém via? Agora se foi. Está na lembrança, e, se não cuidarmos, logo estará no esquecimento permanente. Neste momento de luto, vale ainda se perguntar: quem perde com a destruição de nossa principal instituição na luta constante contra o esquecer? Quem ganha com um futuro sem passado?

O museu que narra a história de um país desigual, ganhou, em seus anos de glória mal paga, adeptos muito distintos daquela corte que o fundara. Os cientistas de hoje já não são os privilegiados de outrora – e talvez por isso o museu tenha tido autorização para queimar. Aquelas e aqueles que fazem ciência no Brasil hoje, aqueles que faziam do museu um lugar para lembrar, são trabalhadoras e trabalhadores sociais que elevaram a pesquisa científica no Brasil ao patamar de excelência materializada na coleção histórica agora destruída. A ciência que vemos hoje, brotar de dentro dos museus e universidades que ainda lutam para fazer pesquisa com qualidade, é ciência de resistência, que subverte as lógicas mesmas instauradas desde a colonização. O museu que queimou deixa, hoje, de narrar a história de um país que luta, muito antes do luto, por ciência e conhecimento produzidos ‘de baixo’ – onde as sombras antes das chamas nos permitiam pensar e imaginar dias menos sombrios.

Reconhecendo o seu valor histórico e científico, não podemos deixar de lembrar, ainda, do valor museológico desse museu que nos ensinou o sentido do Nacional num contexto de narrativas disputadas, de verdades contestadas, de mitos científicos e mal-entendidos epistemológicos que ele nos permitiu suplantar. Esse Museu, que criticamos em sua materialidade imperial, tem valor porque nos permitiu e nos permite pensar a nós mesmos; ele nos permite pensar o nosso próprio pensamento – e talvez este tenha sido o maior tesouro guardado em suas paredes que sobrevivem para fazer lembrar.

Pode-se dizer que a museologia, prática ou teoria que nasce nos museus, no caso brasileiro, nasceu na Quinta da Boa Vista. O museu ali instalado em um palácio Real nos informou sobre o poder da construção do saber com as coisas que ele guardava. Inventamos, desde então, outras coisas sobre as quais gostaríamos de pensar. Fomos levados a inventar outras museologias, tendo o Museu Nacional como paradigma. Sua imponência foi nosso baluarte. Fizemos dele símbolo e mártir, herói e anti-herói de uma museologia que ousou se autoquestionar. Ele foi nossa morada, para que pudéssemos, nos últimos duzentos anos, pensar sobre os seus alicerces. Sua matéria foi nosso escudo; hoje, suas ruínas são nosso corpo, dilacerado pela perda de suas partes irrecuperáveis.

O Museu que é lugar do pensar, é igualmente lugar de se imaginar outros museus. Como ponto de partida museológico, amado, criticado, contestado e re-apropriado como casa da ciência e da imaginação, essa instituição chegou aos nossos dias para fazer lembrar de um passado que serve para ser lembrado e para que possamos esquecer livremente. Esse museu guardava o que nos torna subsidiários de um conhecimento fundante e nos faz saber que a partir dele um novo futuro com passado pode ser construído. Um museu para pensar é um museu para lembrar – e agora pouco importa quem morou nele antes. Somos nós, cientistas com orgulho, museólogos, curadores do lembrar e do esquecer, que o ocupávamos antes de queimar. Fomos nós que escolhemos o que devia ser lembrado como Nação, ainda que os meios nos faltassem como o fogo fez ficar claro naquele domingo de cinzas.

Somos nós que queremos lembrar a nossa história, as nossas ciências, o lugar onde nosso pensamento encontra o substrato para se pensar outro, se reinventar, subvertendo a sua própria origem porque somos capazes de lembra-la. Ainda o somos. Hoje lembrar é ferramenta de luta. Esquecer é luxo daqueles que têm museu, memórias e histórias bem guardadas. Nós não os temos.

Bruno Brulon

Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem – MEI / UNIRIO

5 de setembro de 2018