Hugues de Varine

Hugues M. de Varine-Bohan, mais conhecido como Hugues de Varine, é um arqueólogo, historiador e museólogo francês. Foi Diretor do Conselho Internacional de MuseusICOM, de 1965 a 1974, dando continuidade ao trabalho desenvolvido até então por Georges Henri Rivière, seu primeiro diretor. Nos anos 1970, atuou como consultor para o desenvolvimento comunitário na França. É o criador do termo ecomuseu, ideia que surgiu a partir do esforço em gerar um novo termo para abarcar as formas experimentais de museus que seriam teorizadas no pensamento acerca da Nova Museologia, desenvolvida, nos anos 1980, sob sua destacável influência.

BIOGRAFIA

Hugues de Varine nasceu em Metz, na região histórica da Lorena, França, em 3 de novembro de 1935. Depois de estudar História, Arqueologia e História da Arte na École du Louvre, Varine trabalhou no Instituto Francês de Arqueologia em Beirute, no Líbano, ligado à embaixada da França, onde permaneceu por dois anos atuando como diretor de um centro de documentação cultural e técnica[¹]. Ao retornar ao seu país de origem, auxiliou Georges Henri Rivière na gestão do ICOM, Conselho Internacional de Museus, no cargo de vice-diretor. Após a saída de Rivière, foi nomeado diretor da instituição, no ano de 1965, permanecendo pelo período de nove anos[²]. Em seguida, exerceu várias funções em escritórios locais e nacionais na França. De 1982 a 1984, dirigiu o Instituto Franco-Português de Lisboa, e fundou uma agência de consultoria de desenvolvimento local e comunitário que liderou por dez anos (1989-1999): a ASDIC. Desde o início dos anos 1980, Varine teve o seu nome atrelado ao Movimento Internacional da Nova Museologia – MINOM, por sua já vasta experiência com os ecomuseus. Por meio do desenvolvimento desse movimento de alcance mundial, principalmente nos países de línguas latinas, Varine se tornaria uma influência central para muitos profissionais e teóricos dos ecomuseus, tornando-se um dos principais incentivadores dessas instituições ao redor do mundo. Nos dias de hoje, atua em questões de desenvolvimento cultural, social e econômico, e do patrimônio, como consultor independente. Participou de diversas missões em comunidades urbanas e rurais na França e na União Europeia, incentivando práticas culturais e de consolidação do desenvolvimento local. Atuou também em projetos na Alemanha, Suécia, México, Brasil, Canadá, Portugal, Grécia, Hungria, Irlanda e Reino Unido, entre outros[³].  

PONTOS DE VISTA SOBRE MUSEOLOGIA

“Nova Museologia” e o papel social dos museus

Na virada para a década de 1970, o mundo dos museus sofreu uma “crise”[4] que levou a Museologia a repensar a gestão, o status e o vínculo dos museus com a sociedade e com seus públicos. Num contexto de transformações políticas, econômicas, sociais e culturais, o museu não poderia simplesmente atuar como um receptáculo de obras de arte e testemunhos materiais do homem e do meio ambiente. Seu papel evidencia-se como uma ferramenta a serviço da sociedade. É nesse contexto que se configura a “Nova Museologia”, um movimento que pretende alinhar o museu com os novos rumos do mundo, notadamente influenciada pelos movimentos sociais civis dos anos 1960, pelos movimentos pela independência dos países colonizados na África, e pelo desenvolvimento de novas práticas experimentais de museus nas Américas ligadas à emergência das identidades locais[5].

Dois importantes eventos convidaram a um reposicionamento do museu e alimentaram as reflexões sobre seu papel social: a IX Conferência Geral do Conselho Internacional de Museus (ICOM)[6] realizada em Grenoble em 1971, e organizada por Varine enquanto presidente dessa organização, que tratou do tema “O Museu a serviço dos homens, hoje e amanhã”; e a Mesa Redonda de Santiago no Chile[7], organizada também sob a liderança de Varine, e que ocorreu de 20 a 31 de maio de 1972, sob os auspícios da UNESCO[8]. A Declaração de Santiago do Chile, que surgiu da Mesa Redonda realizada naquele ano, marca uma “virada” na museologia segundo diversos autores e para as novas correntes que passavam a estudar as práticas não-hegemônicas de museus. Surge um contraponto entre novos modelos de museus criados e modelos clássicos; os museus comunitários tornam-se um terreno privilegiado da “Nova Museologia”. Em 1979, Hugues de Varine define a diferença entre o museu tradicional e o museu comunitário pela oposição de três eixos:

“O museu, além das definições acadêmicas, era e ainda é: edifício + coleção + público. Qual é a realidade desses três elementos e o que acontecerá ao museu nas próximas décadas? […] O edifício é substituído por um território, que é o território bem definido de uma comunidade. […] A coleção consiste em tudo o que há nesse território e tudo o que pertence aos seus habitantes, tanto imobiliário como mobiliário, material ou imaterial. É uma herança viva, em constante mudança e criação. […] O público é a população do território em questão como um todo, ao qual visitantes de fora da comunidade podem ser secundariamente adicionados” [9].

O conceito de ecomuseu

 Em 1971, Hugues de Varine criou o termo “ecomuseu”, que foi imediatamente reutilizado e assim legitimado durante a IX Conferência Geral do ICOM, no mesmo ano. Ele propõe um ensaio sobre a teoria do “ecomuseu comunitário” publicado em 1978, que será influenciado pelo Ecomuseu da Comunidade Urbana Le Creusot-Montceau-les-Mines, um experimento do qual também participaram Georges Henri Rivière e André Desvallées.

Acerca desse novo modelo de museu, Varine escreveu:

“O ecomuseu é o instrumento preferido para o desenvolvimento da comunidade. Não visa o conhecimento e o desenvolvimento de uma herança, não é um simples auxiliar de qualquer sistema educacional ou informativo, não é um meio de progresso cultural e democratização para as obras eternas do gênio humano. Por isso ele não pode se identificar com o museu tradicional e suas respectivas definições, que a ele não podem corresponder”[10].

Na França, o modelo dos ecomuseus se tornou o exemplo típico de um museu comunitário, com status reconhecido pela Direção dos Museus da França. O papel do ecomuseu de acordo com Hugues de Varine é múltiplo: o de congregar a população em torno de um projeto, transformar os habitantes em atores e usuários de sua própria herança, desenvolver uma base de dados para a comunidade e, a partir dela, promover discussões, reuniões e iniciativas.

O Ecomuseu do Creusot-Montceau

 O desenvolvimento dos ecomuseus tem sua origem na criação do primeiro ecomuseu francês, o Ecomuseu da Comunidade Urbana Le Creusot-Montceau-les-Mines. Entre 1971 e 1974, com a ajuda de Hugues de Varine, então diretor do ICOM, o apoio de Georges Henri Rivière e o impulso posterior de André Desvallées, desenvolveu-se uma experiência sem precedentes sob a direção de Marcel Évrard. Le Creusot é uma cidade da região Bourgogne-Franche-Comté. Lá, decidiu-se construir um museu que pudesse destacar a história industrial da cidade e que ao mesmo tempo promovesse uma ruptura desta com a hegemonia da dinastia Schneider, fundadora da cidade, que com sua onipresença representada em monumentos e igrejas, se sobrepunha à história da comunidade em si[11]. Por se concretizar como um modelo experimental, ligado a um território amplo e descentralizado, Varine caracterizaria o ecomuseu como um “museu explodido”[12], que se desenvolveria por meio de uma diversidade de atividades promovidas para e com a comunidade.

Os objetivos do ecomuseu o afastaram do modelo clássico de museu, visando envolver a comunidade e as pessoas locais em seu próprio desenvolvimento. Inicialmente, esse projeto não recebeu o apoio necessário de uma supervisão ministerial e nem foi reconhecido pela Direção dos Museus da França.  Porém, posteriormente o Ministério do Meio Ambiente veio a concordar em apoiar o projeto[13]. A partir desse apoio, o ecomuseu entrou oficialmente no mundo das instituições de museu.

O conceito de ecomuseu dominou os debates que se desenrolaram em meados da década de 1980, e o papel de Hugues de Varine foi o de atribuir-lhe uma dimensão internacional. Ele se expandiu através do Atlântico: no Quebec (Canadá), destacou-se a figura de Pierre Mayrand (1934-2011)[14], considerado o teórico da “Nova Museologia” dessa região, que foi o responsável por dar continuidade às reflexões de Varine acerca do processo de “triangulação do ecomuseu”, fundamental para a sua estrutura, e que se caracteriza por três movimentos de um lugar para o outro: da unidisciplinaridade à multidisciplinaridade, do público à comunidade e do edifício ao território[15]; no Brasil, em 1992, Varine participou, como especialista convidado, das discussões para a criação do Ecomuseu do Quarteirão Cultural do Matadouro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, primeiro museu no país que se propunha a seguir as ideias desenvolvidas por ele[16]. O autor francês passaria a ser seguido por diversos profissionais de ecomuseus no país, tornando-se uma influência central nos trabalhos de Odalice M. Priosti e Yára Mattos, entre outros.

 

O museu, a Museologia e o social

 O pensamento de Varine a respeito do museu, traduz o seu olhar sobre a Museologia. Segundo ele: “O museu deve abrir-se a tudo, a tudo o que contribui para a vida. Para mim o museu é tanto um meio quanto um fim”[17]. O museu como meio é a representação do mesmo como instrumento, como potência. O museu como fim é o museu como objetivo. Esse pensamento atrelado ao ideal do ecomuseu do Creusot, o de reunir a memória de uma comunidade a partir dela própria e de suas vivências, contando com o museu como potência transformadora e como instrumento em busca de um objetivo comum a todos, diz muito sobre a experiência do “patrimônio vivo” de que fala Hugues de Varine. As questões sobre a dimensão imaterial do patrimônio, que permeiam os ecomuseus, são assim definidas pelo autor:

“Há património, não há património imaterial! Ou seja, há uma dimensão imaterial e uma dimensão material. Acho que no Creusot, durante o tempo em que lá trabalhei (1970, 1990) nunca usamos as palavras material ou imaterial. Eram conceitos impossíveis. Havia um patrimônio. Qualquer que fosse o objeto: equipamento industrial, artesanal ou pré-industrial, alfaia agrícola, etc. era necessário conhecer os saberes associados ao mesmo, pois sem o imaterial não fazia sentido.”[18]

Sobre o seu entendimento do patrimônio imaterial, Varine complementa: “O imaterial tem de ter um objeto, e um objeto não existe se não houver uma explicação, se não houver uma memória. Então, não é possível compreender o imaterial sem o material”[19]. Para que se mantenha “vivo”, o patrimônio necessariamente precisa estar ligado às suas memórias correspondentes. Esse conceito está estreitamente ligado aos ideais da Nova Museologia, que rompem com os padrões tradicionais instituídos, trazendo novas perspectivas para o campo museológico e um novo pensamento acerca das instituições museais e da hierarquização entre as coleções e os públicos. Sobre o movimento e o seu sentido até os dias de hoje, Hugues de Varine diz:

“Há dois princípios. O princípio de Santiago [Mesa Redonda de Santiago do Chile, 1972, do qual resultou a Declaração de Santiago] – a função social do museu, que implica participação. E o segundo princípio, que é um princípio clássico do movimento local de todos os modelos desenvolvimentistas, ou seja, a ideia de que cada pessoa tem uma competência, tem um saber, não é só o patrimônio imaterial! Cada um de nós tem um saber de vida e que é necessário utilizar senão somos vítimas do saber dos outros. Trata-se de um princípio de Paulo Freire. Paulo Freire dizia – cada um de nós sabe muito e se valorizarmos o saber de cada pessoa temos uma riqueza enorme de saberes que podem ser utilizados para o desenvolvimento local, para a política e para tudo, inclusive para a gestão do patrimônio, para a criação de instituições educativas e instituições do tipo museu. Por um lado, temos um princípio político, que é o princípio da função social e, por outro lado, o princípio empírico, que é a utilização dos saberes das pessoas. E se estes dois conceitos se unirem num projeto então temos participação.”[20]

Esse pensamento reflete o ponto de vista do autor sobre o exercício da museologia a partir da prática comunitária, atuação que se dá de fora para dentro e de dentro para fora no contexto das instituições museais e da Museologia como um todo, interagindo com a sociedade no âmbito do desenvolvimento local como um “serviço sociocultural para o lazer, a educação, a memória, a preservação da herança e identidade culturais da população”.[21]

INFLUÊNCIA

Hugues de Varine foi, ao longo de sua trajetória na Museologia, evidentemente influenciado por Georges Henri Rivière, com quem trabalhou no ICOM e, posteriormente, no desenvolvimento da definição e da prática dos ecomuseus. Juntos atuaram no sentido de impulsionar o campo museológico em direção ao movimento da Nova Museologia. Embora sua inserção na prática museológica dialogasse amplamente com os atores locais, sua teorização dos ecomuseus e da Museologia se deu por meio da influência de diversos autores não-europeus, que ele fazia questão de citar: John Kinard (Estados Unidos), Mário Vazquez (México), Pablo Toucet (Nigéria), Stanislas Adotevi (Benin), Amalendu Bose (Índia), Paulo Freire (Brasil) e Jorge H. Hardoy (Argentina)[22].

AUTORES INFLUENCIADOS

Hugues de Varine influenciou diversos autores da Museologia, por meio de seus pontos de vista sobre a função social dos museus e a aplicação prática dos ecomuseus. Entre aqueles que tiveram sua influência direta ou indireta, pode-se destacar André Desvallées, Mathilde Bellaigue, Alpha Oumar Konaré, Mário Moutinho, Norma Rusconi, Mário Chagas, entre outros. Desvallées, apoiado por Rivière e Varine, então diretor do ICOM, conseguiu um fundo para apoiar novas experiências de museus, proveniente da Direction des musées des France, o que propiciou o desenvolvimento do projeto do Creusot, que obteve reconhecimento internacional. Desde sua experiência com os ecomuseus, Desvallées se tornou o maior difusor das ideias de Varine e Rivière[23], apontando as convergências e divergências nos pensamentos desses dois autores.  

A ligação de Hugues de Varine com Portugal, intensificada no período de 1982 a 1984, quando dirigiu o Instituto Franco-Português (IFP) em Lisboa, foi responsável pela influência exercida por ele sobre a museologia local portuguesa no tocante aos contatos estabelecidos com os museólogos responsáveis por projetos emergentes e intercâmbios entre França e Portugal, assim como no apoio a diversas visitas de estudo que profissionais portugueses fizeram a vários museus e ecomuseus franceses, tal como a visita da APOM a museus da Bretanha e o apoio à organização do “Atelier Internacional da Nova Museologia – Museus Locais, em Lisboa (1985).[24]