Georges Henri Rivière

Capas

Georges Henri Rivière foi um museólogo francês, o primeiro Diretor do Conselho Internacional de Museus (ICOM), cargo que exerceu no período de 1946 a 1962. Considerado o fundador da museologia francófona [1]. Foi o idealizador do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares em Paris.

Ficou conhecido como “mago das vitrines”, por adotar, segundo o historiador Dominique Poulot, “…uma museografia do fio de náilon e do fundo preto, segundo um puritanismo que rejeita absolutamente o manequim, mas pretende restituir da melhor forma possível, com seus movimentos no espaço, os usos do objeto”. Desempenhou um papel de importância no âmbito da Ecomuseologia, propondo sua “definição evolutiva” para os ecomuseus e influenciou o desenvolvimento dos museus de etnografia em escala mundial.

BIOGRAFIA

Família e Formação

Rivière nasceu em 5 de junho de 1897, no 18º distrito de Paris. Sobrinho de Henri Rivière, um notável pintor e gravador, além de designer de teatro, criador do Teatro de Sombras no quase mítico cabaré literário Le Chat Noir, em Montmartre. A ele, Georges Henri Rivière deve o seu nome do meio – que lhe foi concedido quando este se tornou seu tutor após o suicídio de seu pai, Jules, em 1912 – e a grande influência sobre sua concepção artística [2]. É o irmão mais velho da etnóloga Thérèse Rivière que o fez descobrir seu universo no Museu de Etnografia do Trocadero. Estudou no prestigioso Collège Rollin e interrompeu seus estudos após o baccalauréat (equivalente ao Ensino Médio no Brasil). Até 1925, estudou música, uma de suas paixões, que o acompanhou ao longo de toda a sua vida. De 1925 a 1928, teve aulas na École du Louvre (Escola do Louvre), que despertaram o seu interesse pelos museus.

O Museu do Homem (Musée de l’Homme)

Em 1928, Rivière tornou-se o curador da coleção de um banqueiro e investidor, além de colecionador de arte e mecenas de grande influência à época. Neste período, iniciou uma pesquisa sobre peças de arte pré-colombianas no Museu de Etnografia do Trocadero, com o intuito de escrever um artigo para a revista Cahiers d’art, de Christian Zervos. Entusiasmado com o que encontrou, decidiu montar um projeto de exposição, e foi apoiado por David David-Weill. Com o auxílio de um jovem e desconhecido especialista na cultura dos povos pré-colombianos, o posteriormente renomado antropólogo Alfred Métraux, ele inaugurou sua exposição no Museu de Artes Decorativas em 1928, tornando-se conhecido no meio parisiense. Em função de tal repercussão, o novo diretor do Museu de Etnografia do Trocadero, Paul Rivet, decidiu reorganizar o museu com a ajuda do talentoso “GHR”.

Sob a direção do Dr. Paul Rivet, George Henri Rivière apresentou cerca de 70 exposições, de 1928 a 1937. Em função da Exposição Universal de 1937 em Paris, o Museu de Etnografia foi transformado no Musée de l’Homme (Museu do Homem), e Rivière ajudou a fazer da instituição um verdadeiro centro de informação e educação, para além do espaço de exposição [3].

→ O Museu Nacional de Artes e Tradições Populares

De 1937 a 1967, Riviére dirigiu o Museu Nacional de Artes e Tradições Populares (MNATP), o qual idealizou e organizou.

Embora a criação do museu remonte à 1937, a etnologia de domínio francês realmente se expandiu com o estabelecimento da pesquisa científica na área, organizada sob o patrocínio do Estado durante a Ocupação Alemã [4], no período que compreende os anos de 1940 a 1944. Rivière conseguiu instalar o MNATP num local situado à Avenida Mahatma Gandhi, próximo ao Bois de Boulogne. Ali, desenvolveu uma museografia revolucionária, e criou o conceito de museu-laboratório, através da implementação do Centro de Etnologia Francesa, integrado ao museu e ligado ao CNRS, Centre national de la recherche scientifique (Centro Nacional da Pesquisa Científica), o maior órgão público de pesquisa científica da França e uma das mais importantes instituições nesse âmbito no mundo [5], com a proposta de desenvolver as pesquisas necessárias para o desenvolvimento das exposições no seio da instituição. Essa iniciativa denotou a intenção de fazer da etnologia uma ciência, com base numa Museologia totalmente renovada [6].

→ Rivière e o Conselho Internacional de Museus

Descobridor de talentos e líder nato, G. H. Rivière desempenhou um papel fundamental na fundação do ICOM (Conselho Internacional de Museus), do qual foi o primeiro diretor, de 1948 a 1965, tornando-se em seguida conselheiro permanente, função que exerceu até a sua morte, em 1985. Ele trabalhou no desenvolvimento da organização através dos seus comitês, suas conferências gerais e seu centro de documentação, colaborando decisivamente para a projeção da instituição como uma referência mundial [7].

PONTOS DE VISTA SOBRE A MUSEOLOGIA

Georges Henri Rivière teve um papel preponderante na renovação da museologia na França. Suas ideias inovadoras e um certo gosto pelas frivolidades sociais – circulou ativamente nos meios sociais do “Gran Monde” dos ricos e famosos parisienses – levaram-no a estabelecer o que foi chamado de “operações de comunicação“, como por exemplo, quando colocou em exposição a artista americana naturalizada francesa Joséphine Baker, no Museu do Homem. Esse tipo de iniciativa, o constituiu, segundo Isac Chiva [8], como anfitrião de algumas das maiores pesquisas etnográficas coletivas dos nossos tempos.

Segundo Mendes, os conceitos de Rivière abriram o espaço museológico para a dimensão cotidiana, observada a partir de um olhar antropológico.

Participou ativamente do desenvolvimento do conceito de ecomuseu [9], que se espalhou pelo mundo no início dos anos 1970. Antes disso, na década de 1960, mais especificamente nos anos de 1966 a 1968, desenvolveu um projeto de pesquisa, a frente do MNATP e em parceria com a direção geral do Centro Nacional da Pesquisa Científica, que pode ser considerado um embrião do modelo dos ecomuseus. Trata-se do programa Recherches coopératives sur programme d’Aubrac et du Châtillonnais, que se propôs a analisar aspectos sociais, históricos e culturais de duas comunidades rurais na França. Desse projeto saiu uma exposição que pode ser chamada de uma tradução expográfica dessas comunidades, com a musealização de objetos coletados durante a pesquisa, com simbolismos específicos referentes às áreas onde foram coletados, que traduziam os usos e costumes desses locais [10].

Juntamente com Hugues de Varine – criador do termo ecomuseu – e André Desvallées, seu principal discípulo no MNATP, envolveu-se na exploração dessa nova forma experimental de museu, participando do projeto do Écomusée du Creusot Montceau-les-Mines, que alcançou projeção internacional, e abriu caminhos para uma nova perspectiva acerca do campo museológico.

Até o final de sua vida, Georges Henri Rivière continuou a incentivar a continuidade de trabalhos direcionados no caminho da inovação. Faleceu em 25 de março de 1985, aos 88 anos, na comunidade de Louveciennes, na França.

→ Museologia e Museografia

Uma maior teorização dos termos Museologia e Museografia marcaria o pensamento museológico de Rivière, desde os anos 1950 e 1960, quando, movido por uma necessidade de precisão terminológica existente no Conselho Internacional de Museus, ele propõe a sua definição, diferenciando os termos.

Entre o fim dos anos 1950 e início de 1960, o então diretor do ICOM propôs que a Museologia fosse entendida como “a ciência que tem como fim o estudo da missão e organização do museu” e a museografia como “o conjunto de técnicas em relação com a Museologia” [11]. Tal separação entre ciência e técnica, ou teoria e prática, estaria presente na definição dos dois termos, sendo posteriormente abarcada pelo termo Museologia, que em alguns contextos do mundo ganharia teor mais amplo do que o de museografia [12].

Interdisciplinaridade

A interdisciplinaridade permeia o trabalho de Rivière, assim como permeia o campo da Museologia, tanto na teoria, quanto na prática. A integração das ideias e dos conteúdos de outras disciplinas na construção do pensamento museológico e no desenvolvimento das atividades museais faz parte das suas bases fundadoras e de toda a sua estrutura.

Sobre a parceria entre o unidisciplinar e o interdisciplinar, GHR escreveu:

“…a interdisciplinaridade de hoje irá abster-se de ceder a qualquer espírito de dominação e de recuperação, e à ideia de que é algo através do qual se pretende resolver todas as questões. Em contrapartida, desempenha o papel dinâmico que lhe é próprio, o de comparar e integrar ideias em parceria com a unidisciplinaridade, cujo papel é o de cultivar o seu próprio campo. Ambos os papéis são complementares, a sístole e a diástole do mesmo coração” [13]. (RIVIÈRE, 1981)

INFLUÊNCIAS

Ligado à vanguarda cultural parisiense dos anos vinte e ao surrealismo, recebeu a influência de Alfred Métraux, antropólogo de origem suíça de quem foi aluno, e que o auxiliou em sua célebre exposição sobre arte pré-colombiana, que o lançou ao reconhecimento público. A proximidade com os etnólogos franceses Michel Leiris e Marcel Griaule o guiaram pelos caminhos da Etnologia. Foi influenciado também por Paul Rivet, outro etnólogo francês, de quem foi assistente na direção do Museu de Etnografia do Trocadero, que se tornou posteriormente o Musée de l’Homme.

É evidente a influência da Etnologia no pensamento museológico de Georges Henri Rivière. A proposta de revolucionar a apresentação de objetos utilitários de civilizações e inseri-los no seu contexto social e funcional, reconhecendo o homem por trás dos objetos, foi o fio condutor de seu trabalho. O local – nacional e popular – reunido à cultura do cotidiano, foi a fórmula que construiu as bases da concepção do “museu-laboratório” de Rivière, para quem um museu deveria ser um lugar de mediação entre a ciência e o grande público [14].

AUTORES INFLUENCIADOS

A influência de G.H. Rivière sobre a carreira e o pensamento de André Desvallés faz parte da história do campo da Museologia. Desvallées trabalhou como assistente de “GHR” por 18 anos, de 1959 a 1977, no Museu Nacional de Artes e Tradições Populares. Foi influenciado através dos conceitos sobre o modus operandi das práticas museais no MNATP, do ponto de vista da etnologia e de sua atuação nos ecomuseus, apoiada e incentivada por Rivière.

Hugues de Varine também recebeu a influência de Georges Henri Rivière, que foi seu companheiro no desenvolvimento do conceito de ecomuseu, promovendo um rompimento com os padrões tradicionais instituídos e atuando no sentido de impulsionar o campo museológico para o movimento da “Nova Museologia”. Entre eles, toda uma geração de museólogos franceses seguiu e segue até o presente o caminho museal e museológico aberto por Rivière.

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