Museus para todos: Museologia Existe e Resiste

      Filho do luto e da revolta causada por recentes explosões, reflexo de tempos sendo deixada de lado a importância da área de Cultura e Patrimônio para a nossa sociedade, o “Museus para Todos” é o movimento de resistência e luta dos estudantes de Museologia da Universidade Federal do estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

      Desde a primeira Assembleia, ocorrida no dia 11 de setembro de 2018, os estudantes vêm se articulando enquanto um grupo que pretende representar a Escola de Museologia e a maioria que a compõe e vai contra o fim do Instituto Brasileiro de Museus, a venda da área para setores privados que, por sua vez, não se comprometem em representar toda a sociedade, parte essa fundamental no que se refere aos museus e narrativas que os mesmos abordam, dentre muitas outras questões. Com lemas diversos, sobre os quais se destaca o “Museologia Resiste”, o movimento hoje se faz uma ferramenta que impulsiona um maior engajamento político dos estudantes enquanto um coletivo, dentro e fora da Universidade.

 

12-10 Biblioteca Nacional por Gusthavo Gonçalves

 

      Marco do início das mobilizações, feito no dia da primeira Assembleia, já referida acima, o Manifesto da Museologia, feito pelos estudantes, com linguagem de fácil entendimento e intitulado “Museologia em LUTA”, deixa explícita a vontade de se comunicar com o público leigo e que nunca teve contato com a museologia, até mesmo, ou, como parece ser válido dizer, principalmente, quem nunca se sentiu representado nos museus. Parte do manifesto diz “[…] Para futuros profissionais do Patrimônio, tal contexto sombrio causa profundo pesar, mas acima de tudo, nos desperta um movimento de luta. […]”, o que, tendo em vista a empatia e comoção por parte de pessoas de diversas camadas sociais sobre o ocorrido ao Museu Nacional, traz uma aproximação através do conforto em saber que parte de quem, a princípio, tem o dever de se responsabilizar pelos fins e rumos tomados pelos museus está de fato se pondo em efetivo local de cuidado e respeito aos mesmos.

      Nesse cenário, foi acordada uma manifestação saída da Urca, em caminhada e luta, com fim no Museu da República, no Palácio do Catete, tendo como base discursiva o Manifesto, tratando o incêndio no Museu nacional e, assinadas pelo então presidente Michel Temer, ilegítimo, vale dizer, as duas Medidas Provisórias – 850/2018 e 851/2018 -, que, respectivamente, extingue o Instituto Brasileiro de Museus e cria fundos patrimoniais, em diversas áreas estando entre elas a da Cultura e do Patrimônio, sendo assim um primeiro passo para a aproximação do setor privado, retrocedendo políticas públicas, principalmente a Política Nacional de Museus. Com distribuição de panfletos, gritos de guerra sobre o contexto da área, a manifestação chamou atenção e deu credibilidade ao Museus para todos, com mais pessoas buscando se engajar e participar da luta que é de todos.

      Mas infelizmente, não “só” o incêndio acometido ao Museu Nacional, não “só” as MP’s 850/2018 e 851/2018, mas também mais uma tentativa de reclassificação da Museologia, por parte do Ministério da Educação, através do Manual Preliminar para a Classificação dos Cursos, a CINE (Classificação Internacional Normalizada da Educação), numa subárea, dessa vez da História e da  Arqueologia, fato que ainda está em vigência, bem como as MP’s, faz parte das atuais pautas do movimento. Além disso, com as movimentações, foi observada uma necessidade interna do curso de entender políticas de administração pública, sendo pensado também em conjunto aulões, palestras, seminários e uma articulação interna para rever a grade curricular.

      Nesses quase três meses de existência do Museus para todos, foram realizados dois aulões, foi efetivada a participação do movimento em uma série de eventos e atos em defesa de uma maior democracia e dois seminários, o primeiro com o tema “Direito à memória e democratização museal” e o segundo, realizado em novembro, sobre questões raciais no campo museal. Entre as vitórias, também está o XII ENEMU (Encontro Nacional dos Estudantes de Museologia), que será sediado pela UNIRIO em 2019.

      Sem mais delongas, falar sobre o Museus para todos, deve ser um compromisso com seu pioneirismo na história da Museologia, tendo em vista que pela primeira vez houve uma organização por parte dos estudantes em defesa da área que há tempos vem sendo construída de forma conjunta e participativa, mesmo assim, é facilmente atacada por parte do poder público que não tem seus interesses contemplados nas ações da mesma. Em luta, é como se encontra a Museologia atualmente, mais que nunca e sobretudo na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), a fim de mostrar sua existência e resistência.

 

Texto de Lia Fernandes Peixinho & Thalyta de Sousa Angelici

Imagem de Gusthavo Roxo

Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem – MEI / UNIRIO

 

5 de dezembro de 2018

É preciso lembrar até para poder esquecer: luto pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro

Estamos de luto pelo Museu! Estamos de luto pela cultura, pelo patrimônio, pela ciência, luto pela história, por aquela que não nos narrava por inteiro, mas que narra a Nação mesma cujo descaso colocou em chamas a nossa capacidade de lembrar. Este luto por um passado perdido e um presente sem futuro é luto por todos os museus, que queimaram junto com as cinzas do Museu mais antigo, nesta celebração fúnebre do seu bicentenário. Enterramos esta semana parte da museologia, da ciência, do conhecimento científico no Brasil. Enterramos e sofremos pelo patrimônio maior que é o saber e o poder saber sobre nós mesmos. Enterramos o lembrar que serve até mesmo para poder esquecer.

Estamos de luto pelo Museu Nacional e por seus duzentos anos de museologia, de ciência e de história. Esse Museu, cuja perda sentimos como quem perde alguém com quem ainda se tem muito a dizer, esse Museu que faz parte de nosso cotidiano, que conta histórias da nossa vida e a história de nosso próprio pensamento sobre os museus, sobre nós mesmos como pessoas de museus, deixa um vazio palpável de uma lembrança que não se quer perder mesmo depois de queimar sem piedade diante de nossos olhos. O Museu que nos fez, como pesquisadores, museólogos, antropólogos, arqueólogos, paleontólogos, zoólogos, botânicos, historiadores dos museus e da ciência, indígenas, visitantes, turistas, amantes, passantes, curiosos… É um Museu que foi feito por pessoas de carne e osso que felizmente sobrevivem, mas tristemente são privadas de continuar a pensar com as coisas guardadas por ele. Essas pessoas lutaram desde antes do luto; fizeram o Museu, se formaram no Museu, lutaram pelo Museu que sobrevivia pelo suor daqueles que o conduziram apesar dos percalços. O Museu Nacional, símbolo da contradição que marca todo um país, possuía uma das mais ricas coleções do mundo e um dos menores orçamentos em 2018, até pouco antes de queimar.

Esse Museu, que é de todos nós, chegou aqui em meio a uma história que nos constitui – e que até para poder contestá-la precisamos, antes, conhece-la, lembra-la por meio dos vestígios que ela nos deixou. O Museu Nacional do Rio de Janeiro – cuja criação, em 1818, nós celebramos ao longo deste ano com a devida crítica histórica – marcou, no contexto de um império com sede nos trópicos, a continuidade política e cultural da metrópole na distância da colônia. Ele foi um modelo de produção e disseminação do saber a partir de coleções organizadas e classificadas segundo critérios formulados com base em trocas internacionais, introduzindo no país o sentido daquilo que nomeamos como conhecimento.

 O que ocorre no Brasil com a criação do Museu Nacional, a partir da Casa dos Pássaros (criada em 1784), no momento em que já não havia mais porque manter aqui um entreposto de produtos naturais, foi a continuidade com o modelo de museu existente na Europa, que se deu pela inversão do pacto colonial – “a Colônia comandou a mudança e acabou por assimilar a Metrópole”[¹]. Em outras palavras, o pensamento museológico colonial no contexto da criação do primeiro museu era fundamentalmente metropolitano, e reproduzia nas Américas o projeto cientificista português, cunhado desde as reformas pombalinas, no século XVIII.

Esses primeiros museus nas colônias desenvolveram uma ciência caracterizada pelos critérios de neutralidade e racionalidade disseminados a partir da Europa moderna, tendo o positivismo como característica marcante no século XIX. No entanto, como demonstrou a historiadora das ciências Maria Margaret Lopes, no âmbito da difusão desse chamado “colonialismo científico”[²], esse processo de institucionalização das Ciências Naturais no Brasil incluiu mecanismos ligados às especificidades de nosso contexto local que levou a “ajustes” e “alterações”[³] nos modelos importados. O Museu que vimos queimar, desde o seu passado colonial, confrontou os modelos importados de museologia às narrativas e experiências locais, produzindo uma museologia mestiça, crítica e reflexiva – justamente porque podíamos nos dar ao luxo de lembrar desse passado, e de ressignifica-lo no presente.

Lembramos do passado enquanto ele ainda termina de queimar. Exaltamos suas cinzas, deixadas pela política negligente de uma amnésia anunciada. Sabíamos dos riscos. E muitos foram os gritos por socorro! Quem ouviu o Museu que urrava? Quem olhou para seus profissionais mal pagos e sem condições de fazer viver a lembrança de um passado necessário? Onde está o Museu que ninguém via? Agora se foi. Está na lembrança, e, se não cuidarmos, logo estará no esquecimento permanente. Neste momento de luto, vale ainda se perguntar: quem perde com a destruição de nossa principal instituição na luta constante contra o esquecer? Quem ganha com um futuro sem passado?

O museu que narra a história de um país desigual, ganhou, em seus anos de glória mal paga, adeptos muito distintos daquela corte que o fundara. Os cientistas de hoje já não são os privilegiados de outrora – e talvez por isso o museu tenha tido autorização para queimar. Aquelas e aqueles que fazem ciência no Brasil hoje, aqueles que faziam do museu um lugar para lembrar, são trabalhadoras e trabalhadores sociais que elevaram a pesquisa científica no Brasil ao patamar de excelência materializada na coleção histórica agora destruída. A ciência que vemos hoje, brotar de dentro dos museus e universidades que ainda lutam para fazer pesquisa com qualidade, é ciência de resistência, que subverte as lógicas mesmas instauradas desde a colonização. O museu que queimou deixa, hoje, de narrar a história de um país que luta, muito antes do luto, por ciência e conhecimento produzidos ‘de baixo’ – onde as sombras antes das chamas nos permitiam pensar e imaginar dias menos sombrios.

Reconhecendo o seu valor histórico e científico, não podemos deixar de lembrar, ainda, do valor museológico desse museu que nos ensinou o sentido do Nacional num contexto de narrativas disputadas, de verdades contestadas, de mitos científicos e mal-entendidos epistemológicos que ele nos permitiu suplantar. Esse Museu, que criticamos em sua materialidade imperial, tem valor porque nos permitiu e nos permite pensar a nós mesmos; ele nos permite pensar o nosso próprio pensamento – e talvez este tenha sido o maior tesouro guardado em suas paredes que sobrevivem para fazer lembrar.

Pode-se dizer que a museologia, prática ou teoria que nasce nos museus, no caso brasileiro, nasceu na Quinta da Boa Vista. O museu ali instalado em um palácio Real nos informou sobre o poder da construção do saber com as coisas que ele guardava. Inventamos, desde então, outras coisas sobre as quais gostaríamos de pensar. Fomos levados a inventar outras museologias, tendo o Museu Nacional como paradigma. Sua imponência foi nosso baluarte. Fizemos dele símbolo e mártir, herói e anti-herói de uma museologia que ousou se autoquestionar. Ele foi nossa morada, para que pudéssemos, nos últimos duzentos anos, pensar sobre os seus alicerces. Sua matéria foi nosso escudo; hoje, suas ruínas são nosso corpo, dilacerado pela perda de suas partes irrecuperáveis.

O Museu que é lugar do pensar, é igualmente lugar de se imaginar outros museus. Como ponto de partida museológico, amado, criticado, contestado e re-apropriado como casa da ciência e da imaginação, essa instituição chegou aos nossos dias para fazer lembrar de um passado que serve para ser lembrado e para que possamos esquecer livremente. Esse museu guardava o que nos torna subsidiários de um conhecimento fundante e nos faz saber que a partir dele um novo futuro com passado pode ser construído. Um museu para pensar é um museu para lembrar – e agora pouco importa quem morou nele antes. Somos nós, cientistas com orgulho, museólogos, curadores do lembrar e do esquecer, que o ocupávamos antes de queimar. Fomos nós que escolhemos o que devia ser lembrado como Nação, ainda que os meios nos faltassem como o fogo fez ficar claro naquele domingo de cinzas.

Somos nós que queremos lembrar a nossa história, as nossas ciências, o lugar onde nosso pensamento encontra o substrato para se pensar outro, se reinventar, subvertendo a sua própria origem porque somos capazes de lembra-la. Ainda o somos. Hoje lembrar é ferramenta de luta. Esquecer é luxo daqueles que têm museu, memórias e histórias bem guardadas. Nós não os temos.

Bruno Brulon

Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem – MEI / UNIRIO

5 de setembro de 2018

Alpha Oumar Konaré

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Alpha Oumar Konaré é um político e museólogo do Mali. Ele foi presidente da República do Mali de 1992 a 2002, presidente da Comissão da União africana até 2008, membro do Conselho Internacional de Museus, ICOM, do qual foi presidente entre 1989 à 1992, e membro ativo do Comitê Internacional de Museologia – ICOFOM.   

BIOGRAFIA

Alpha Oumar Konaré nasceu em 2 de fevereiro de 1946 em Kayes (Mali) onde ele frequentou a escola primária. Ele cursou, em seguida, o liceu Terrasson de Fougères de Bamako, o Collège des Maristes de Dakar (Senegal), o Collège moderne de Kayes e, entre 1962 e 1964, a École normale secondaire de Katibougou. Ele realiza os seus estudos superiores em história na École normale supérieure de Bamako (1965-1969) e na universidade de Varsóvia (Polônia) entre 1971 e 1975. Ele inicia a sua carreira profissional se tornando professor primário em Kayes, depois professor do liceu em Markala e em Bamako.

Em 1974 ele é encarregado de pesquisa no Institut des sciences humaines (Instituto de ciências humanas) do Mali, em seguida, de 1975 a 1978, se torna chefe do patrimônio histórico e etnográfico no Ministério da Juventude, dos Esportes, das Artes e da Cultura. Em 1980, ele é nomeado pesquisador no Institut supérieur de formation en recherche appliquée (ISFRA) (Instituto superior de formação em pesquisa aplicada), e professor no Departamento de história e geografia da École normale supérieure de Bamako. Ao longo de sua carreira, ele foi responsável por diversas associações profissionais ligadas ao contexto africano: Associação dos Historiadores-Geógrafos do Mali, Associação dos arqueólogos do oeste africano, União dos Pesquisadores da África do Oeste.

INSERÇÃO POLÍTICA

Ele começa a militar politicamente desde sua juventude. Em 1967, é eleito secretário geral da Juventude na US-RDA (Union soudanaise-Rassemblement démocratique africain [União sudanesa – Reunificação democrática africana], o partido do presidente Modibo Keïta) ligada à École normale supérieure de Bamako. Após o golpe de Estado de Moussa Traoré, ele se torna militante do partido clandestino « Parti malien du travail » (“Partido do trabalho do Mali”).

Em 1978, acreditando na vontade de abertura de Moussa Traoré, ele aceita se tornar seu ministro da Juventude, dos Esportes, das Artes e da Cultura. Ele se demite em 1980. Sua ação foi marcada pela formação de quadros e da organização do esporte no Mali. Em 1983, ele funda e dirige a revista cultural Jamana e a cooperativa cultural do mesmo nome. Em 1989, ele funda e dirige o periódico Les Échos.

Em 1990, ele participa da criação da associação « Alliance pour la démocratie au Mali » (ADEMA) (“Aliança para a democracia no Mali”), com a qual ele contribui para transformar em partido político ao fundar a Alliance pour la démocratie au Mali-Parti africain pour la solidarité et la justice (ADEMA/PASJ) (Aliança para a democracia no Mali – Partido africano para a solidariedade e a justiça). Ele é o seu primeiro presidente e o delegado da Conférence nationale du Mali (Conferência nacional do Mali) em 1991, após a queda de Moussa Traoré. Em 1991, ele cria a « Radio Bamanankan », a primeira rádio associativa livre do Mali.

Em abril de 1992, no fim da transição democrática conduzida por Amadou Toumani Touré, ele é eleito presidente da república, com 69,01 % dos votos no segundo turno contra Tiéoulé Mamadou Konaté. Ele é reeleito para um segundo mandato em 1997 ainda no primeiro turno com 95,9% dos votos contra um único canditato, Mamadou Maribatrou Diaby.

No plano nacional, sua ação foi marcada pela restauração da democracia no Mali, o encerramento do conflito com os Touaregs, a realização da descentralização no país. Contudo, as dificuldades econômicas e a corrupção persistiram. Em 2002, conforme à Constituição que limita o número de mandatos presidenciais a dois, Konaré é sucedido por Amadou Toumani Touré.

 

PROJEÇÃO INTERNACIONAL

 

No mundo dos museus, em 1980, Konaré inicia sua atuação no Conselho Internacional de Museus (ICOM) em 1980, tornando-se membro do comitê consultivo para projetos. Torna-se presidente do comitê nacional do Mali a partir de 1982[¹]. Em 1983, é eleito vice-presidente do ICOM, sendo reeleito para o mesmo cargo em 1986 e eleito à presidência do Conselho em 1989, cumprindo o seu mandato até 1992 como o primeiro presidente africano dessa organização.
Desde 1982, Konaré já participava das atividades do ICOFOM[²], sendo esse o ano de sua primeira participação em um encontro anual do comitê, em Paris, com o qual passaria a contribuir ao longo de sua trajetória no ICOM. Ele foi, ainda, consultor da UNESCO e do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) entre 1981 e 1992.
No plano internacional, ele trabalha para a paz sobre o continente africano e a integração regional. Ele presidiu a CEDEAO (Comunidade econômica dos Estados da África do Oeste) e a UEMOA (União econômica e monetária oeste-africana) em 1999 e 2000.
Konaré foi eleito presidente da comissão da União africana em 10 de julho de 2003 pelos chefes de Estados africanos reunidos no sommet de Maputo. Seu mandato se cumpriu em 2009, e o gabonês Jean Ping o sucedeu.
Ele é membro do Haut Conseil de la Francophonie (Alto Conselho da Francofonia). É doutor Honoris Causa da Université Rennes 2 Haute-Bretagne e da Université libre de Bruxelles.

Alpha Oumar Konaré é casado com a escritora e historiadora Adame Ba Konaré.

 

PONTOS DE VISTA SOBRE A MUSEOLOGIA

 

Ao longo de sua atuação na Museologia, Alpha Oumar Konaré apresentou pontos de vista sensíveis à realidade museal africana, colocando em questão o modelo de museu europeu e apresentando suas variações e inovações no continente africano ao analisar os museus no Mali. Por sua grande circulação internacional, suas ideias foram determinantes ao despertarem a atenção de europeus para o patrimônio e a cultura africana e sua representação nos museus. Não apenas colocou em questão o modelo de museu europeu no continente africano, como também interrogou a África representada nos museus da Europa.

 

REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA MUSEAL AFRICANA

 

A criação, em 1953, de um museu no Mali foi, para Konaré, um ato colonial. O museu africano, em sua análise, teve o sentido de um prolongamento das exposições coloniais que aconteciam na Europa no início do século XX, e representou por si só “um ato de ‘violência’, uma ruptura com as tradições”[³], que desconsiderava a cultura das populações locais para encenar uma cultura da assimilação. Para Konaré:

“A coleção, o museu, eram a sanção de uma brecha aberta, a consequência de uma desagregação das estruturas sociais tradicionais. O museu só podia conter os objetos mortos, condenados a morrer ou condenados à morte.”[4]

Confrontando sistematicamente os princípios museológicos clássicos, adotados por museus europeus, com as experiências observadas nos museus africanos, Konaré se apoia na prática para relativizar os tipos de museus e o sentido da inovação propondo “um tipo de museu adaptado ao país”[5]. Ao analisar a renovação do Museu Nacional em Bamako, no Mali, em 1981, esse profissional-politizado apresenta uma prática que, segundo ele, “rompe com a tradição do museu monolítico, palácio da cultura, etc.” e propõe o museu como um “centro cultural” capaz de afirmar a modernidade na cultura do Mali desde sua configuração[6].
Inserido em uma nova política museal que recomendava a democratização dos museus tanto no âmbito de sua concepção quanto nos meios de acesso e nos modos de comunicação, o Museu Nacional de Bamako foi concebido para ser o “pulmão” dos museus do Mali. Ele devia funcionar como o ponto de coordenação, a referência ou o “laboratório central”[7] de todos os outros museus no país. Tratou-se, então, de um novo olhar institucional para uma museologia em transformação.
Em seu primeiro texto apresentado no ICOFOM, discutindo o estatuto de objetos autênticos e das cópias no contexto africano, em 1985, Konaré denuncia a colonização como o principal motor da criação de cópias ou da desfuncionalização de objetos rituais[8]. Aponta ter sido a partir da ocupação colonial que os militares e os administradores da metrópole passaram a se interessar pelos objetos “exóticos”. A “coleta” desses objetos por meio da força levou à criação de museus que passavam a servir aos interesses coloniais e ao mesmo tempo a atender às demandas do turismo nascente[9]. Segundo aponta Konaré: “Diante do desafio de se poder ‘povoar’ esses museus de objetos verdadeiros mas desfuncionalizados os museus identificaram os artesãos (em geral homens de casta) que seriam encarregados de fabricar cópias a partir de modelos reais (que não serão destruídos) ou de gravuras ou fotografias”[10].
Esses museus criados sob os auspícios da colonização apresentavam coleções “desenraizadas, dessacralizadas ou ‘fora de uso’”, sem que tivessem qualquer relação com o meio ambiente humano e social local. O museu, assim, nas palavras de Konaré,

se tornou duplamente um lugar do sacrilégio: “para alguns ele violava o espírito dos ancestrais, e para outros violava as consciências.”[¹¹]

A função do museólogo nesse contexto é então colocada em questão. Konaré afirma que conscientemente o museólogo compra objetos ou até mesmo comete fraude, aderindo ao comportamento “esnobe, exótico” dos agentes coloniais. O problema pode estar, como explica ele, na formação desses profissionais que não abarca o conhecimento e a valorização das suas culturas nacionais. Com efeito, os quadros da cultura nacional são marginalizados assim como os seus saberes e os seus meios de expressão, tais como as línguas[¹²]. Propõe que os museólogos se tornem, antes de tudo, “homens do campo [terrain]”, nutridos das culturas nacionais (tradicionais), da história e da ciência[¹³].

 

O PAPEL DAS POPULAÇÕES LOCAIS NA DESCOLONIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS MUSEAIS

       

Entre os anos 1980 e início dos 1990, o pensamento museológico de Alpha Oumar Konaré irá passar de uma crítica mais aguda a estes estabelecimentos como instrumentos coloniais de dominação para considerar, mais amplamente, o seu papel como importantes instrumentos de ruptura para as populações locais. Em seu discurso na Assembleia Geral do ICOM de 1992, que tinha por tema a pergunta “Existem limites para os museus?”, Konaré enfatiza a função dos museus de testemunhar o seu entorno e interpretar os acontecimentos[14] nos diversos contextos do mundo pós-colonial.

Já em sua crítica aos museus etnográficos tradicionais, em 1983, ele reconhece as transformações recentes do modelo europeu e propõe que, “entre todos os tipos de museu existentes hoje na Europa, a África deveria examinar de mais perto o sistema dos ecomuseus” por representarem a priori “um território, uma população em ação, um ‘patrimônio que decorre da memória coletiva’” e de “‘um conjunto de práticas sociais concretas em um campo [terrain] real”[15].

A partir do exemplo dos ecomuseus, Konaré percebe nas práticas de integração das populações na realização e na gestão dos museus, o principal meio por sua autonomia. Tal premissa significa, para os museus tradicionais, que as populações elas mesmas devem determinar as escolhas que irão determinar a coleta de objetos[16]. Para os ecomuseus africanos, significa integrar igualmente todos os recursos, humanos e materiais, do meio, considerando de forma homogênea, na nova estrutura museal, a educação, a cultura e a informação[17].   

Para Konaré, os ecomuseus apresentavam novas vias diferentes que privilegiavam as estruturas tradicionais da educação ou, ainda, novas estruturas a serem inventadas no campo de ação – das populações e dos museólogos. Somente assim se poderia pensar novas estruturas autônomas para os museus africanos, capazes de estabelecer uma ruptura real com a herança colonial e neocolonial[18]. Ele considera, contudo, os problemas e dificuldades da abordagem ecomuseal no contexto africano, por ter como ponto de partida a participação de autoridades locais e de uma população. Que tipo de governo poderia, no continente africano, implementar com sucesso um ecomuseu?

Considerando a apropriação do ecomuseu na África, Konaré ressalta a necessidade de se aceitar diversos modelos, e logo diversas abordagens e traduções de novas fórmulas que derivam dos ecomuseus europeus, privilegiando ainda mais “o papel de unidades tais como as famílias, as ‘pessoas-recursos’, os mais velhos, etc.”[19]. A experiência africana, logo, desafia e alarga o conceito do ecomuseu, colocando em primeiro plano os bens imateriais (palavras, ritos, signos, etc.) caros às sociedades de cultura oral, e tendo o humano, o criador, que pode fazer e refazer o novo, como o protagonista da ação museal.  

 

A “LIBERTAÇÃO” DAS ARTES PRIMEIRAS NA EUROPA

 

Enquanto ocupava o cargo de presidente do ICOM, entre 1989 e 1992, Konaré foi uma voz influente na causa pela representação das culturas africanas nos museus europeus. Sua influência contribuiu para a valoração das “artes primeiras” nos museus, movimento que vinha ganhando adeptos nos anos 1990 com a criação de novos museus que rompiam com a lógica etnográfica considerada colonialista, incluindo novos museus nacionais de arte, voltados para essa temática.

Em seu pensamento sobre a descolonização dos museus, por um lado, Konaré defendia que os museus etnográficos no continente africano fossem reformulados, cabendo aos africanos (e não aos estrangeiros “experts”), se libertarem de toda alienação cultural, rejeitando os conceitos estrangeiros para descolonizar os museus reinventando-os de acordo com as suas próprias necessidades[20]. Por outro lado, voltando-se para as coleções africanas no contexto europeu, Konaré questionou o viés colonialista que ainda predominava na representação africana por meio dos objetos “etnográficos”.

Em janeiro de 1990, ocupando a presidência do ICOM, Konaré se dirige ao Primeiro ministro da França, Michel Rocard, para ressaltar a ausência de valorização das artes africanas nos museus do país e sugerindo a criação de um novo estabelecimento, o que deveria conduzir “à valorização, ao fortalecimento e à renovação de outros museus especializados sobre a África”[21]. Sua mensagem, simultaneamente política e museológica, ecoou positivamente entre personalidades francesas como o colecionador Jacques Kerchache[22], responsável por dar uma voz objetiva e direcionada a um desejo de mudança que vinha de diversos agentes.

Em meio à crise dos museus etnográficos na França, e da incerteza sobre o destino das coleções, Kerchache coloca em questão o tipo de tratamento museológico que estas vinham recebendo nessas instituições. Alguns meses após a declaração de Konaré, Kerchache se tornaria conhecido, publicando, no periódico Libération, o seu “Manifesto pelas chefs d’œuvre do mundo inteiro nascerem livres e iguais”[23]. Essa mobilização das autoridades culturais no mundo francês levaria a uma revolução dos valores no mundo dos museus etnográficos e de arte, engendrando o rótulo de artes primeiras para as coleções da África, Ásia, Oceania e das Américas em museus privados e nacionais, como o Musée du quai Branly, idealizado nos anos 1990 por Jacques Kerchache e pelo então presidente francês, Jacques Chirac. 

INFLUÊNCIAS

Em sua crítica aos museus, Konaré certamente se inspirou nas reflexões de Stanislas Adotevi, museólogo do Daomé (atual Benin), que nos anos 1970 plantou a semente da descolonização no seio do ICOM[24]. Ele foi influenciado ainda, em seus trabalhos, pelos museólogos franceses Hugues de Varine, Georges Henri Rivière, e pelo africano do Mali, Claude Daniel Ardouin.

AUTORES INFLUENCIADOS

Direta ou indiretamente, seus trabalhos sobre os museus na África influenciaram uma abordagem mais crítica na museologia pensada por autores tais como André Desvallées e François Mairesse. Em seus comentários sobre as artes primeiras, suas ideias e pontos de vista políticos seriam utilizados por Jacques Kerchache e Jacques Chirac na “liberação” francesa da arte africana.   

PRINCIPAIS OBRAS

Konaré, Alpha Oumar (1980). Musées et patrimoine ethnologique. Actes de la 12e Conférence générale et de la 13e Assemblée générale du Conseil international des musées. Mexico, 25 octobre – 4 novembre, 1980. ICOM, pp.69-71.

Konaré, Alpha Oumar. (1981). Bamako, Mali. Naissance d’un musée. Museum, vol. XXXIII, n. 1, pp.4-8.

Konaré, Alpha Oumar. (1983). Pour d’autres musées « ethnographique » en Afrique. Museum, n. 139, vol. XXXV, n.3, 1983, pp.146-151.

Konaré, Alpha Oumar. (1985a). Des écomusées pour le Sabel: un programme. Museum, n. 148, vol. XXXVII, n. 4, 1985, pp.230-236.

Konaré, Alpha Oumar. (1985b). Substituts de masques et statuettes au Mali. ICOFOM Study Series ISS 8, 1985, pp. 57–60.

Konaré, Alpha Oumar. (1987). L’idée du musée. ICOFOM Study Series – ISS 12, 1987, pp. 151–155.

Konaré, Alpha Oumar. (1992). Discours du président. In : ICOM. (1992). Musées : y-a-t-il des limites ? Actes de la XVIe Conférence générale du Conseil international des musées, 19 au 26 septembre 1992, Québec, Canada. pp.75-76.

Konaré, Alpha Oumar. (2004). Un africain du Mali. Entretien avec Bernard Cattanéo. Bamako : Cauris Éditions.

Konaré, Alpha Oumar. (2015). La bataille du souvenir. Bamako : Cauris Livres.

Alpha Oumar Konaré

Alpha Oumar Konaré (b. February 2, 1946, Kayes) is an African politician and museologist from Mali. He was the President of Mali from 1992 to 2002 and Chairman of the African Union Comission until 2008. He is also a member of the International Council of Museums (ICOM), an organization of which he was president from 1989 to 1992, and has played an active role as member of the International Committee for Museology (ICOFOM).

BIOGRAPHY

Alpha Oumar Konaré was born on February 2, 1946 in Kayes, Mali, where he went to primary school. Later, he attented the Terrasson de Fougères High School in Bamako; the Collège des Maristes in Dakar, Senegal; the Collège Moderne in Kayes and, from 1962 to 1964, the École Normale Secondaire of Katibougou. He accomplished his superior studies in History and Geography at the École Normale Supérieure in Bamako (1965-1969) and at the University of Varsovia (Polonia), from 1971 to 1975. He started his professional career as a primary teacher in Kayes, then, later, as a high school teacher in Markala and Bamako.

In 1974, he was appointed Research Fellow at the Human Sciences Institute of Mali. Afterwards, from 1975 to 1978, he became Head of the Historical and Ethnographic Heritage at the Ministry of Youth, Sports, Arts and Culture. In 1980, he was nominated as Research Fellow at the High Training Institute in Applied Research (ISFRA) and also worked as a teacher in the Department of History and Geography of the École Normale Superieure in Bamako.

Throughout his career, he was chairman of several professional associations related to the african context, such as: the Association of Historians and Geographers in Mali, the West African Archeologists’ Association and the Association of West African Scientists.

POLITICAL CAREER

He became a political activist from a young age. In 1967, he was elected General Secretary of Youth for US-RDA (Sudanese Union – African Democratic Rally), the political party of President Modibo Keita, from the École Normale Supérieure of Bamako.

After Moussa Traoré’s coup d’état, he became an activist for the clandestin party (Malian Party of Labour). In 1978, believing in Moussa Traoré’s willingness for an open approach, he accepts the position of Ministry of Youth, Sports, Arts and Culture. He then resigns in 1980. His actions were crucial for basic education and the organization of sports in Mali.

In 1983, he funded and managed the cultural magazine Jamana, and also a namesake cultural cooperative. In 1989, he started the newspaper Les Échos. In 1990, he had a role in the foundation of ADEMA association (Alliance for Democracy in Mali), contributing later to transform it into a political party, named as Pan-African Party for Liberty, Solidarity and Justice (ADEMA/PASJ). He was its first president and the deputy of Mali’s National Conference in 1991, after the decline of Moussa Traoré.

In 1991, he created Bamanankan Radio, Mali’s first free associative radio. In April 1992, at the end of the democratic transition conducted by Amadou Toumani Touré, he was elected Federal President with 69,01% of the votes in the second round, against Tiéoulé Mamadou Konaté. He was reelected for a second term in 1997, still in the first round, with 95,9% of votes against only one candidate, Mamadou Maribatrou Diaby.

On a national scale, his actions were defined by the restauration of Mali’s democracy, the end of conflits with the Touaregs and also the achievement of decentralization in the country. However, the economic difficulties and corruption remained, despite his efforts. In 2002, in accordance with the Constitution which limits the number of presidential terms to two, Konaré was succeeded by Amadou Toumani Touré.

INTERNATIONAL TRAJECTORY

            In the museum world, in 1980, Konaré become member of the consultive committee of ICOM for projects. He became president of Mali’s National Committee in 1982[¹]. In 1983, he was elected vice-president of ICOM, being reelected for the same position in 1986. Later, in 1989, he was elected president, ending his term in 1992 as the first African president of this organization.

Konaré had already been participating in activities of ICOFOM since 1982[²], the same year of his first participation in an annual meeting of the committee, in Paris. He kept contributing to ICOFOM throughout his career at ICOM, and he was also a consultant of UNESCO and the UNDP (United Nations Development Programme) from 1981 to 1992.

            On an international level, he works for peace in the African continent and for regional integration. He presided the Economic Community of West African States (ECOWAS) and the West African Economic and Monetary Union (UEMOA) in 1999 and 2000. Konaré was elected president of the African Union Comission on July 10th of 2003, by African Chiefs of States reunited in Maputo’s Summit. His term ended in 2009, and his successor was the Gabonese Jean Ping.

            He is member of the Haut Conseil de la Francophonie (The Francophone High Council) and Doctor Honoris Causa of the Université Rennes 2 Haute-Bretagne and the Université libre de Bruxelles.

Alpha Oumar Konaré is married to the writer and historian Adame Ba Konaré.

POINTS OF VIEW ON MUSEOLOGY

During his career in Museology, Alpha Oumar Konaré presented sensitive points of view to the African museum reality, raising questions about the European model of museum and presenting the variety and innovations in the African continent as he analyzed Mali’s museums.
Due to his international prestige, his ideas were decisive for the awaken of Eurocentric museology to the representation of African heritage and culture in museums around the world. Not only he has called into question the European model of the museum in Africa, but he has also interrogated the “Africa” represented in museums all over Europe.

THOUGHTS ON THE MUSEUM PRACTICE IN AFRICA

The foundation, in 1953, of a museum in Mali was, to Konaré, a colonial act. The African museum, on his analysis, had the same purpose of the colonial exhibitions that were still happening in Europe at the beginning of the 20th Century, and represented “an act of ‘violence’, a break with the traditions”[³] that disregarded the culture of local populations to put into place a culture of assimilation. To Konaré:

“The collection, the museum, were the sanction of an open wound, the consequence of disaggregation of traditional social structures. The museum could only contain dead objects, condemned to death or to die”.[4]

Systematically confronting classical museological principles adopted by European museums, with practices learned from the African museums, Konaré relied on his experience to put into context the types of museums and the goal of innovation, proposing “a type of museum adapted to the country”[3]. By considering the renovation of the National Museum of Bamako, in 1981, this politicized-specialist presents a practice that, according to him, “breaks with the tradition of the monolithic museum, palace/house of culture, etc.” and proposes the museum as a “cultural center” capable of affirming modernity in Mali’s culture since its foundation[5].

Acting in a new museum policy that recommended the democratization of museums both within their conception and in the means of access and communication, the National Museum of Bamako was designed to be the “lungs” of Mali’s museums. In other words, it should function as the coordinating point, a benchmark or the “center lab”[6] of all other museums in the country. It represented, then, a new institutional perspective over a changing museology.

In his first paper presented at ICOFOM, discussing the regulations of authentic objects and copies in the African context, in 1985, Konaré accuses colonization to be the main engine for the creation of copies or for depriving ceremonial objects of their religious function[7]. He points out that it was from the colonial occupation that the military and the cities’ administrators began to take interest in “exotic” objects. The “collection” of these objects by force led to the creation of museums that served colonial interests and, at the same time, met the demands of the rising tourism[8]. According to Konaré: “Faced with the challenge of ‘populating’ these museums with true but non-functional objects, museums have identified artisans (usually caste men) who would be in charge of making copies from real models (which will not be destroyed) or prints or photographs”[9].

These museums, created under the patronage of colonization, presented collections “uprooted, desecrated or ‘out of use'”, without having any relation with the local human and social environment. The museum, thus, in the words of Konaré, became a place of sacrilege in two senses: “for some, it violated the spirit of the ancestors, and for others, it violated consciousness.”[10]

The role of the museologist in this context is then called into question. Konaré states that the museologist consciously purchases objects or even commits fraud, following the “snob, exotic” behavior of colonial agents. The problem may be, as he explains, in the training of these professionals, that doesn’t include the knowledge and appreciation of their national cultures. In fact, the references of national culture are marginalized as well as their knowledge and means of expression, such as languages[11]. He proposes that museologists should become, first and foremost, “men of the field [terrain]”, nourished by national (traditional) cultures, history and science[12].

THE ROLE OF LOCAL POPULATIONS IN THE DECOLONIZATION OF MUSEUM STRUCTURES 

Between the 1980’s and the beginning of the 1990’s, the museological thought of Alpha Oumar Konaré goes from a more critical point of view about the traditional museums – seen as instruments to colonial domination – to considerer the important role of these institutions when used as instruments to the local populations. In his speech at ICOM’s General Assembly of 1992, where the theme question was “Are there limits for the museums?”, Konaré emphasized the capacity of museums to testify their surroundings and interpret events in many different contexts in the postcolonial world.
On the other hand, in a critique from 1983 about traditional ethnographic museums, he recognized the recent transformations of the European model and proposed that “among all types of museums in Europe today, Africa should examine the system of ecomuseums more closely”, because they represent a priori “a territory, a population in action, a ‘heritage derived from the collective memory'” and “a set of concrete social practices in a real field [terrain]”.
Based on the example of ecomuseums, Konaré notices in the practices of integrating local populations to create and manage museums a key method to reach autonomy. Such premise means, for traditional museums, that the populations themselves must determine the choices which will establish the collection of objects[13]. For African ecomuseums, it means integrating equally all the human and material resources of the local environment, considering, in the new museum structure, the education, the culture and the information in a homogeneous way[14].

            To Konaré, ecomuseums offered new and different paths that favored the traditional structures of education or, still, new structures to be invented in the field of action – of local populations and museologists as well. Only then one could think of new autonomous structures for African museums capable of establishing a real dissolution with colonial and neocolonial heritage[15]. He considers, however, the problems and difficulties of the ecomuseum approach in the African context, since it has as its starting point the participation of local authorities and a population. What kind of government could, on the African continent, successfully implement an ecomuseum?

            Considering the appropriation of the ecomuseum in Africa, Konaré emphasizes the need to accept different models, and hence several approaches and translations of new formulas that arise from the European ecomuseums, favouring even more “the role of units such as families, ‘resourceful people’, the elderly, etc.”[16]. The African experience, therefore, challenges and broadens the concept of the ecomuseum, prioritizing the intangible goods (words, rituals, signs, etc.) that are particularly special to the societies of oral culture, and having the human, the creator as someone who can make and remake the new, taking the leading role in the museum action.

THE “LIBERATION” OF ARTS PREMIERS IN EUROPE

While occupying the role of president of ICOM, from 1989 to 1992, Konaré was an influential voice in the cause for representation of African cultures in European museums. His influence contributed to the appreciation of the “arts premiers” in museums, a movement that had been gaining supporters in the 1990’s with the creation of new museums that broke with the ethnographic logic seen as colonialist – including some new national art museums oriented to this theme.
In his thought on the decolonization of museums, on the one hand, Konaré defended that ethnographic museums in the African continent should be renewed, leaving the responsibility of freeing themselves from all cultural alienation – rejecting the foreign concepts to decolonize the museums and reinventing them according to their own needs – to the benefit of the African people (not the foreign “experts”). On the other hand, looking at African collections in the European context, Konaré questioned the colonialist bias that still prevailed in the African representation through “ethnographic” objects.
In January 1990, when he took over the presidency of ICOM, Konaré addressed the Prime Minister of France, Michel Rocard, to highlight the lack of appreciation of African art in French museums and suggested the creation of a new institution, which should lead to the “appreciation, enhancement, and renovation of other museums specialized in African culture”. His message, both political and museologic, echoed positively among French personalities such as the collector Jacques Kerchache , responsible for giving a straightforward support to a desire for change that came from different representatives.
In the midst of a crisis of ethnographic museums in France, and of an uncertainty about the fate of their collections, Kerchache calls into question the kind of museological treatment these objects were receiving in these institutions. A few months after Konaré’s declaration, Kerchache would become well-known for publishing, in the newspaper Libération, his manifesto “For masterpieces of the whole world to be born free and equal”. This mobilization of cultural authorities in the French context would lead to a revolution of the values from ethnographic and art museums around the world, creating the label of “arts premiers” to the collections of Africa, Asia, Oceania and the Americas in private and national institutions, such as the Musée du quai Branly, idealized in the 1990’s by Jacques Kerchache and by French president Jacques Chirac.

INFLUENCES

In his museum critique, Konaré was certainly inspired by the reflections of Stanislas Adotevi, museologist from Dahomey (currently Benin), who in the 1970s has planted the seed of decolonization within ICOM . He was also influenced in this works by French museologists Hugues de Varine, Georges Henri Rivière, and the African from Mali, Claude Daniel Ardouin.

AUTHORS HE INFLUENCED 

Directly or indirectly his works on museums in Africa have influenced a more critical approach to museology by authors such as André Desvallées and François Mairesse. In his comments on the arts premiers, his ideas and political points of view would be used by Jacques Kerchache and Jacques Chirac in the French “liberation” of African art.

MAIN WORKS

Konaré, Alpha Oumar (1980). Musées et patrimoine ethnologique. Actes de la 12e Conférence générale et de la 13e Assemblée générale du Conseil international des musées. Mexico, 25 octobre – 4 novembre, 1980. ICOM, pp.69-71.
Konaré, Alpha Oumar. (1981). Bamako, Mali. Naissance d’un musée. Museum, vol. XXXIII, n. 1, pp.4-8.

Konaré, Alpha Oumar. (1983). Pour d’autres musées « ethnographique » en Afrique. Museum, n. 139, vol. XXXV, n.3, 1983, pp.146-151.

Konaré, Alpha Oumar. (1985a). Des écomusées pour le Sabel: un programme. Museum, n. 148, vol. XXXVII, n. 4, 1985, pp.230-236.

Konaré, Alpha Oumar. (1985b). Substituts de masques et statuettes au Mali. ICOFOM Study Series – ISS 8, 1985, pp. 57–60.

Konaré, Alpha Oumar. (1987). L’idée du musée. ICOFOM Study Series – ISS 12, 1987, pp. 151–155.

Konaré, Alpha Oumar. (1992). Discours du président. In : ICOM. (1992). Musées : y-a-t-il des limites ? Actes de la XVIe Conférence générale du Conseil international des musées, 19 au 26 septembre 1992, Québec, Canada. pp.75-76.

Konaré, Alpha Oumar. (2004). Un africain du Mali. Entretien avec Bernard Cattanéo. Bamako : Cauris Éditions.

Konaré, Alpha Oumar. (2015). La bataille du souvenir. Bamako : Cauris Livres.