Museus para todos: Museologia Existe e Resiste

      Filho do luto e da revolta causada por recentes explosões, reflexo de tempos sendo deixada de lado a importância da área de Cultura e Patrimônio para a nossa sociedade, o “Museus para Todos” é o movimento de resistência e luta dos estudantes de Museologia da Universidade Federal do estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

      Desde a primeira Assembleia, ocorrida no dia 11 de setembro de 2018, os estudantes vêm se articulando enquanto um grupo que pretende representar a Escola de Museologia e a maioria que a compõe e vai contra o fim do Instituto Brasileiro de Museus, a venda da área para setores privados que, por sua vez, não se comprometem em representar toda a sociedade, parte essa fundamental no que se refere aos museus e narrativas que os mesmos abordam, dentre muitas outras questões. Com lemas diversos, sobre os quais se destaca o “Museologia Resiste”, o movimento hoje se faz uma ferramenta que impulsiona um maior engajamento político dos estudantes enquanto um coletivo, dentro e fora da Universidade.

 

12-10 Biblioteca Nacional por Gusthavo Gonçalves

 

      Marco do início das mobilizações, feito no dia da primeira Assembleia, já referida acima, o Manifesto da Museologia, feito pelos estudantes, com linguagem de fácil entendimento e intitulado “Museologia em LUTA”, deixa explícita a vontade de se comunicar com o público leigo e que nunca teve contato com a museologia, até mesmo, ou, como parece ser válido dizer, principalmente, quem nunca se sentiu representado nos museus. Parte do manifesto diz “[…] Para futuros profissionais do Patrimônio, tal contexto sombrio causa profundo pesar, mas acima de tudo, nos desperta um movimento de luta. […]”, o que, tendo em vista a empatia e comoção por parte de pessoas de diversas camadas sociais sobre o ocorrido ao Museu Nacional, traz uma aproximação através do conforto em saber que parte de quem, a princípio, tem o dever de se responsabilizar pelos fins e rumos tomados pelos museus está de fato se pondo em efetivo local de cuidado e respeito aos mesmos.

      Nesse cenário, foi acordada uma manifestação saída da Urca, em caminhada e luta, com fim no Museu da República, no Palácio do Catete, tendo como base discursiva o Manifesto, tratando o incêndio no Museu nacional e, assinadas pelo então presidente Michel Temer, ilegítimo, vale dizer, as duas Medidas Provisórias – 850/2018 e 851/2018 -, que, respectivamente, extingue o Instituto Brasileiro de Museus e cria fundos patrimoniais, em diversas áreas estando entre elas a da Cultura e do Patrimônio, sendo assim um primeiro passo para a aproximação do setor privado, retrocedendo políticas públicas, principalmente a Política Nacional de Museus. Com distribuição de panfletos, gritos de guerra sobre o contexto da área, a manifestação chamou atenção e deu credibilidade ao Museus para todos, com mais pessoas buscando se engajar e participar da luta que é de todos.

      Mas infelizmente, não “só” o incêndio acometido ao Museu Nacional, não “só” as MP’s 850/2018 e 851/2018, mas também mais uma tentativa de reclassificação da Museologia, por parte do Ministério da Educação, através do Manual Preliminar para a Classificação dos Cursos, a CINE (Classificação Internacional Normalizada da Educação), numa subárea, dessa vez da História e da  Arqueologia, fato que ainda está em vigência, bem como as MP’s, faz parte das atuais pautas do movimento. Além disso, com as movimentações, foi observada uma necessidade interna do curso de entender políticas de administração pública, sendo pensado também em conjunto aulões, palestras, seminários e uma articulação interna para rever a grade curricular.

      Nesses quase três meses de existência do Museus para todos, foram realizados dois aulões, foi efetivada a participação do movimento em uma série de eventos e atos em defesa de uma maior democracia e dois seminários, o primeiro com o tema “Direito à memória e democratização museal” e o segundo, realizado em novembro, sobre questões raciais no campo museal. Entre as vitórias, também está o XII ENEMU (Encontro Nacional dos Estudantes de Museologia), que será sediado pela UNIRIO em 2019.

      Sem mais delongas, falar sobre o Museus para todos, deve ser um compromisso com seu pioneirismo na história da Museologia, tendo em vista que pela primeira vez houve uma organização por parte dos estudantes em defesa da área que há tempos vem sendo construída de forma conjunta e participativa, mesmo assim, é facilmente atacada por parte do poder público que não tem seus interesses contemplados nas ações da mesma. Em luta, é como se encontra a Museologia atualmente, mais que nunca e sobretudo na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), a fim de mostrar sua existência e resistência.

 

Texto de Lia Fernandes Peixinho & Thalyta de Sousa Angelici

Imagem de Gusthavo Roxo

Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem – MEI / UNIRIO

 

5 de dezembro de 2018

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