Alpha Oumar Konaré

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Alpha Oumar Konaré é um político e museólogo do Mali. Ele foi presidente da República do Mali de 1992 a 2002, presidente da Comissão da União africana até 2008, membro do Conselho Internacional de Museus, ICOM, do qual foi presidente entre 1989 à 1992, e membro ativo do Comitê Internacional de Museologia – ICOFOM.   

BIOGRAFIA

Alpha Oumar Konaré nasceu em 2 de fevereiro de 1946 em Kayes (Mali) onde ele frequentou a escola primária. Ele cursou, em seguida, o liceu Terrasson de Fougères de Bamako, o Collège des Maristes de Dakar (Senegal), o Collège moderne de Kayes e, entre 1962 e 1964, a École normale secondaire de Katibougou. Ele realiza os seus estudos superiores em história na École normale supérieure de Bamako (1965-1969) e na universidade de Varsóvia (Polônia) entre 1971 e 1975. Ele inicia a sua carreira profissional se tornando professor primário em Kayes, depois professor do liceu em Markala e em Bamako.

Em 1974 ele é encarregado de pesquisa no Institut des sciences humaines (Instituto de ciências humanas) do Mali, em seguida, de 1975 a 1978, se torna chefe do patrimônio histórico e etnográfico no Ministério da Juventude, dos Esportes, das Artes e da Cultura. Em 1980, ele é nomeado pesquisador no Institut supérieur de formation en recherche appliquée (ISFRA) (Instituto superior de formação em pesquisa aplicada), e professor no Departamento de história e geografia da École normale supérieure de Bamako. Ao longo de sua carreira, ele foi responsável por diversas associações profissionais ligadas ao contexto africano: Associação dos Historiadores-Geógrafos do Mali, Associação dos arqueólogos do oeste africano, União dos Pesquisadores da África do Oeste.

INSERÇÃO POLÍTICA

Ele começa a militar politicamente desde sua juventude. Em 1967, é eleito secretário geral da Juventude na US-RDA (Union soudanaise-Rassemblement démocratique africain [União sudanesa – Reunificação democrática africana], o partido do presidente Modibo Keïta) ligada à École normale supérieure de Bamako. Após o golpe de Estado de Moussa Traoré, ele se torna militante do partido clandestino « Parti malien du travail » (“Partido do trabalho do Mali”).

Em 1978, acreditando na vontade de abertura de Moussa Traoré, ele aceita se tornar seu ministro da Juventude, dos Esportes, das Artes e da Cultura. Ele se demite em 1980. Sua ação foi marcada pela formação de quadros e da organização do esporte no Mali. Em 1983, ele funda e dirige a revista cultural Jamana e a cooperativa cultural do mesmo nome. Em 1989, ele funda e dirige o periódico Les Échos.

Em 1990, ele participa da criação da associação « Alliance pour la démocratie au Mali » (ADEMA) (“Aliança para a democracia no Mali”), com a qual ele contribui para transformar em partido político ao fundar a Alliance pour la démocratie au Mali-Parti africain pour la solidarité et la justice (ADEMA/PASJ) (Aliança para a democracia no Mali – Partido africano para a solidariedade e a justiça). Ele é o seu primeiro presidente e o delegado da Conférence nationale du Mali (Conferência nacional do Mali) em 1991, após a queda de Moussa Traoré. Em 1991, ele cria a « Radio Bamanankan », a primeira rádio associativa livre do Mali.

Em abril de 1992, no fim da transição democrática conduzida por Amadou Toumani Touré, ele é eleito presidente da república, com 69,01 % dos votos no segundo turno contra Tiéoulé Mamadou Konaté. Ele é reeleito para um segundo mandato em 1997 ainda no primeiro turno com 95,9% dos votos contra um único canditato, Mamadou Maribatrou Diaby.

No plano nacional, sua ação foi marcada pela restauração da democracia no Mali, o encerramento do conflito com os Touaregs, a realização da descentralização no país. Contudo, as dificuldades econômicas e a corrupção persistiram. Em 2002, conforme à Constituição que limita o número de mandatos presidenciais a dois, Konaré é sucedido por Amadou Toumani Touré.

 

PROJEÇÃO INTERNACIONAL

 

No mundo dos museus, em 1980, Konaré inicia sua atuação no Conselho Internacional de Museus (ICOM) em 1980, tornando-se membro do comitê consultivo para projetos. Torna-se presidente do comitê nacional do Mali a partir de 1982[¹]. Em 1983, é eleito vice-presidente do ICOM, sendo reeleito para o mesmo cargo em 1986 e eleito à presidência do Conselho em 1989, cumprindo o seu mandato até 1992 como o primeiro presidente africano dessa organização.
Desde 1982, Konaré já participava das atividades do ICOFOM[²], sendo esse o ano de sua primeira participação em um encontro anual do comitê, em Paris, com o qual passaria a contribuir ao longo de sua trajetória no ICOM. Ele foi, ainda, consultor da UNESCO e do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) entre 1981 e 1992.
No plano internacional, ele trabalha para a paz sobre o continente africano e a integração regional. Ele presidiu a CEDEAO (Comunidade econômica dos Estados da África do Oeste) e a UEMOA (União econômica e monetária oeste-africana) em 1999 e 2000.
Konaré foi eleito presidente da comissão da União africana em 10 de julho de 2003 pelos chefes de Estados africanos reunidos no sommet de Maputo. Seu mandato se cumpriu em 2009, e o gabonês Jean Ping o sucedeu.
Ele é membro do Haut Conseil de la Francophonie (Alto Conselho da Francofonia). É doutor Honoris Causa da Université Rennes 2 Haute-Bretagne e da Université libre de Bruxelles.

Alpha Oumar Konaré é casado com a escritora e historiadora Adame Ba Konaré.

 

PONTOS DE VISTA SOBRE A MUSEOLOGIA

 

Ao longo de sua atuação na Museologia, Alpha Oumar Konaré apresentou pontos de vista sensíveis à realidade museal africana, colocando em questão o modelo de museu europeu e apresentando suas variações e inovações no continente africano ao analisar os museus no Mali. Por sua grande circulação internacional, suas ideias foram determinantes ao despertarem a atenção de europeus para o patrimônio e a cultura africana e sua representação nos museus. Não apenas colocou em questão o modelo de museu europeu no continente africano, como também interrogou a África representada nos museus da Europa.

 

REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA MUSEAL AFRICANA

 

A criação, em 1953, de um museu no Mali foi, para Konaré, um ato colonial. O museu africano, em sua análise, teve o sentido de um prolongamento das exposições coloniais que aconteciam na Europa no início do século XX, e representou por si só “um ato de ‘violência’, uma ruptura com as tradições”[³], que desconsiderava a cultura das populações locais para encenar uma cultura da assimilação. Para Konaré:

“A coleção, o museu, eram a sanção de uma brecha aberta, a consequência de uma desagregação das estruturas sociais tradicionais. O museu só podia conter os objetos mortos, condenados a morrer ou condenados à morte.”[4]

Confrontando sistematicamente os princípios museológicos clássicos, adotados por museus europeus, com as experiências observadas nos museus africanos, Konaré se apoia na prática para relativizar os tipos de museus e o sentido da inovação propondo “um tipo de museu adaptado ao país”[5]. Ao analisar a renovação do Museu Nacional em Bamako, no Mali, em 1981, esse profissional-politizado apresenta uma prática que, segundo ele, “rompe com a tradição do museu monolítico, palácio da cultura, etc.” e propõe o museu como um “centro cultural” capaz de afirmar a modernidade na cultura do Mali desde sua configuração[6].
Inserido em uma nova política museal que recomendava a democratização dos museus tanto no âmbito de sua concepção quanto nos meios de acesso e nos modos de comunicação, o Museu Nacional de Bamako foi concebido para ser o “pulmão” dos museus do Mali. Ele devia funcionar como o ponto de coordenação, a referência ou o “laboratório central”[7] de todos os outros museus no país. Tratou-se, então, de um novo olhar institucional para uma museologia em transformação.
Em seu primeiro texto apresentado no ICOFOM, discutindo o estatuto de objetos autênticos e das cópias no contexto africano, em 1985, Konaré denuncia a colonização como o principal motor da criação de cópias ou da desfuncionalização de objetos rituais[8]. Aponta ter sido a partir da ocupação colonial que os militares e os administradores da metrópole passaram a se interessar pelos objetos “exóticos”. A “coleta” desses objetos por meio da força levou à criação de museus que passavam a servir aos interesses coloniais e ao mesmo tempo a atender às demandas do turismo nascente[9]. Segundo aponta Konaré: “Diante do desafio de se poder ‘povoar’ esses museus de objetos verdadeiros mas desfuncionalizados os museus identificaram os artesãos (em geral homens de casta) que seriam encarregados de fabricar cópias a partir de modelos reais (que não serão destruídos) ou de gravuras ou fotografias”[10].
Esses museus criados sob os auspícios da colonização apresentavam coleções “desenraizadas, dessacralizadas ou ‘fora de uso’”, sem que tivessem qualquer relação com o meio ambiente humano e social local. O museu, assim, nas palavras de Konaré,

se tornou duplamente um lugar do sacrilégio: “para alguns ele violava o espírito dos ancestrais, e para outros violava as consciências.”[¹¹]

A função do museólogo nesse contexto é então colocada em questão. Konaré afirma que conscientemente o museólogo compra objetos ou até mesmo comete fraude, aderindo ao comportamento “esnobe, exótico” dos agentes coloniais. O problema pode estar, como explica ele, na formação desses profissionais que não abarca o conhecimento e a valorização das suas culturas nacionais. Com efeito, os quadros da cultura nacional são marginalizados assim como os seus saberes e os seus meios de expressão, tais como as línguas[¹²]. Propõe que os museólogos se tornem, antes de tudo, “homens do campo [terrain]”, nutridos das culturas nacionais (tradicionais), da história e da ciência[¹³].

 

O PAPEL DAS POPULAÇÕES LOCAIS NA DESCOLONIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS MUSEAIS

       

Entre os anos 1980 e início dos 1990, o pensamento museológico de Alpha Oumar Konaré irá passar de uma crítica mais aguda a estes estabelecimentos como instrumentos coloniais de dominação para considerar, mais amplamente, o seu papel como importantes instrumentos de ruptura para as populações locais. Em seu discurso na Assembleia Geral do ICOM de 1992, que tinha por tema a pergunta “Existem limites para os museus?”, Konaré enfatiza a função dos museus de testemunhar o seu entorno e interpretar os acontecimentos[14] nos diversos contextos do mundo pós-colonial.

Já em sua crítica aos museus etnográficos tradicionais, em 1983, ele reconhece as transformações recentes do modelo europeu e propõe que, “entre todos os tipos de museu existentes hoje na Europa, a África deveria examinar de mais perto o sistema dos ecomuseus” por representarem a priori “um território, uma população em ação, um ‘patrimônio que decorre da memória coletiva’” e de “‘um conjunto de práticas sociais concretas em um campo [terrain] real”[15].

A partir do exemplo dos ecomuseus, Konaré percebe nas práticas de integração das populações na realização e na gestão dos museus, o principal meio por sua autonomia. Tal premissa significa, para os museus tradicionais, que as populações elas mesmas devem determinar as escolhas que irão determinar a coleta de objetos[16]. Para os ecomuseus africanos, significa integrar igualmente todos os recursos, humanos e materiais, do meio, considerando de forma homogênea, na nova estrutura museal, a educação, a cultura e a informação[17].   

Para Konaré, os ecomuseus apresentavam novas vias diferentes que privilegiavam as estruturas tradicionais da educação ou, ainda, novas estruturas a serem inventadas no campo de ação – das populações e dos museólogos. Somente assim se poderia pensar novas estruturas autônomas para os museus africanos, capazes de estabelecer uma ruptura real com a herança colonial e neocolonial[18]. Ele considera, contudo, os problemas e dificuldades da abordagem ecomuseal no contexto africano, por ter como ponto de partida a participação de autoridades locais e de uma população. Que tipo de governo poderia, no continente africano, implementar com sucesso um ecomuseu?

Considerando a apropriação do ecomuseu na África, Konaré ressalta a necessidade de se aceitar diversos modelos, e logo diversas abordagens e traduções de novas fórmulas que derivam dos ecomuseus europeus, privilegiando ainda mais “o papel de unidades tais como as famílias, as ‘pessoas-recursos’, os mais velhos, etc.”[19]. A experiência africana, logo, desafia e alarga o conceito do ecomuseu, colocando em primeiro plano os bens imateriais (palavras, ritos, signos, etc.) caros às sociedades de cultura oral, e tendo o humano, o criador, que pode fazer e refazer o novo, como o protagonista da ação museal.  

 

A “LIBERTAÇÃO” DAS ARTES PRIMEIRAS NA EUROPA

 

Enquanto ocupava o cargo de presidente do ICOM, entre 1989 e 1992, Konaré foi uma voz influente na causa pela representação das culturas africanas nos museus europeus. Sua influência contribuiu para a valoração das “artes primeiras” nos museus, movimento que vinha ganhando adeptos nos anos 1990 com a criação de novos museus que rompiam com a lógica etnográfica considerada colonialista, incluindo novos museus nacionais de arte, voltados para essa temática.

Em seu pensamento sobre a descolonização dos museus, por um lado, Konaré defendia que os museus etnográficos no continente africano fossem reformulados, cabendo aos africanos (e não aos estrangeiros “experts”), se libertarem de toda alienação cultural, rejeitando os conceitos estrangeiros para descolonizar os museus reinventando-os de acordo com as suas próprias necessidades[20]. Por outro lado, voltando-se para as coleções africanas no contexto europeu, Konaré questionou o viés colonialista que ainda predominava na representação africana por meio dos objetos “etnográficos”.

Em janeiro de 1990, ocupando a presidência do ICOM, Konaré se dirige ao Primeiro ministro da França, Michel Rocard, para ressaltar a ausência de valorização das artes africanas nos museus do país e sugerindo a criação de um novo estabelecimento, o que deveria conduzir “à valorização, ao fortalecimento e à renovação de outros museus especializados sobre a África”[21]. Sua mensagem, simultaneamente política e museológica, ecoou positivamente entre personalidades francesas como o colecionador Jacques Kerchache[22], responsável por dar uma voz objetiva e direcionada a um desejo de mudança que vinha de diversos agentes.

Em meio à crise dos museus etnográficos na França, e da incerteza sobre o destino das coleções, Kerchache coloca em questão o tipo de tratamento museológico que estas vinham recebendo nessas instituições. Alguns meses após a declaração de Konaré, Kerchache se tornaria conhecido, publicando, no periódico Libération, o seu “Manifesto pelas chefs d’œuvre do mundo inteiro nascerem livres e iguais”[23]. Essa mobilização das autoridades culturais no mundo francês levaria a uma revolução dos valores no mundo dos museus etnográficos e de arte, engendrando o rótulo de artes primeiras para as coleções da África, Ásia, Oceania e das Américas em museus privados e nacionais, como o Musée du quai Branly, idealizado nos anos 1990 por Jacques Kerchache e pelo então presidente francês, Jacques Chirac. 

INFLUÊNCIAS

Em sua crítica aos museus, Konaré certamente se inspirou nas reflexões de Stanislas Adotevi, museólogo do Daomé (atual Benin), que nos anos 1970 plantou a semente da descolonização no seio do ICOM[24]. Ele foi influenciado ainda, em seus trabalhos, pelos museólogos franceses Hugues de Varine, Georges Henri Rivière, e pelo africano do Mali, Claude Daniel Ardouin.

AUTORES INFLUENCIADOS

Direta ou indiretamente, seus trabalhos sobre os museus na África influenciaram uma abordagem mais crítica na museologia pensada por autores tais como André Desvallées e François Mairesse. Em seus comentários sobre as artes primeiras, suas ideias e pontos de vista políticos seriam utilizados por Jacques Kerchache e Jacques Chirac na “liberação” francesa da arte africana.   

PRINCIPAIS OBRAS

Konaré, Alpha Oumar (1980). Musées et patrimoine ethnologique. Actes de la 12e Conférence générale et de la 13e Assemblée générale du Conseil international des musées. Mexico, 25 octobre – 4 novembre, 1980. ICOM, pp.69-71.

Konaré, Alpha Oumar. (1981). Bamako, Mali. Naissance d’un musée. Museum, vol. XXXIII, n. 1, pp.4-8.

Konaré, Alpha Oumar. (1983). Pour d’autres musées « ethnographique » en Afrique. Museum, n. 139, vol. XXXV, n.3, 1983, pp.146-151.

Konaré, Alpha Oumar. (1985a). Des écomusées pour le Sabel: un programme. Museum, n. 148, vol. XXXVII, n. 4, 1985, pp.230-236.

Konaré, Alpha Oumar. (1985b). Substituts de masques et statuettes au Mali. ICOFOM Study Series ISS 8, 1985, pp. 57–60.

Konaré, Alpha Oumar. (1987). L’idée du musée. ICOFOM Study Series – ISS 12, 1987, pp. 151–155.

Konaré, Alpha Oumar. (1992). Discours du président. In : ICOM. (1992). Musées : y-a-t-il des limites ? Actes de la XVIe Conférence générale du Conseil international des musées, 19 au 26 septembre 1992, Québec, Canada. pp.75-76.

Konaré, Alpha Oumar. (2004). Un africain du Mali. Entretien avec Bernard Cattanéo. Bamako : Cauris Éditions.

Konaré, Alpha Oumar. (2015). La bataille du souvenir. Bamako : Cauris Livres.

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